Saída temporária de Carlos Fávaro altera composição da comissão e acirra embate entre base e oposição em votação decisiva.
Ana Beatriz Publicado em 28/03/2026, às 09h29
Uma manobra política do governo federal elevou a tensão em Brasília nesta sexta-feira (27) ao envolver diretamente a composição da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, responsável por investigar um esquema bilionário de fraudes contra aposentados.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a exoneração do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, com o objetivo de alterar o equilíbrio de forças dentro da comissão em um momento decisivo da votação do relatório final.
Com a saída do cargo, Fávaro reassumiu sua vaga no Senado Federal, o que provocou uma mudança imediata na composição da CPMI. A senadora Margareth Buzetti, suplente do ministro e alinhada à oposição, foi retirada da comissão. Em seu lugar, passou a atuar o senador Beto Faro, integrante da base governista.
A mudança teve impacto direto na correlação de forças dentro do colegiado, que é composto por 32 parlamentares, entre deputados e senadores. Para aprovação do relatório final, são necessários ao menos 17 votos favoráveis, o que transformou cada cadeira em peça-chave na disputa política.
Disputa pelo relatório
O relatório em discussão, elaborado pelo deputado Alfredo Gaspar, pede o indiciamento de mais de 200 pessoas investigadas no esquema de fraudes no INSS, incluindo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
O documento é resultado de meses de investigação sobre descontos indevidos em benefícios previdenciários, que teriam atingido milhões de aposentados em todo o país e movimentado valores bilionários.
Diante da possibilidade de aprovação do parecer, o governo articulou para ampliar sua base dentro da comissão e tentar barrar o avanço do relatório. A estratégia incluiu não apenas a exoneração de Fávaro, mas também a reorganização de votos entre aliados no Congresso.
Reação da oposição
A decisão gerou forte reação entre parlamentares oposicionistas. A senadora Margareth Buzetti afirmou que foi retirada da comissão sem aviso prévio e classificou a medida como uma tentativa clara de interferência política no resultado da investigação.
Segundo ela, a substituição demonstra preocupação do governo com o conteúdo do relatório e com os possíveis desdobramentos jurídicos e políticos do caso.
Nos bastidores, a avaliação de integrantes da CPMI é de que a disputa deixou de ser apenas técnica e passou a ser uma batalha política direta entre governo e oposição, com pressão intensa sobre cada voto.
Contexto da CPMI do INSS
A CPMI foi instalada em 2025 para apurar um esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões. As investigações apontam para uma rede de operadores, entidades e empresas que teriam lucrado com cobranças irregulares aplicadas diretamente nos benefícios dos segurados.
O caso ganhou dimensão nacional após operações da Polícia Federal, prisões de suspeitos e delações que ampliaram o alcance das investigações, atingindo agentes públicos e figuras próximas ao poder.
A votação do relatório final ocorre sob pressão, já que o prazo de funcionamento da comissão se encerra neste sábado (28), o que aumenta ainda mais o peso político da decisão.