Ministro do STF derruba decisão do STJ e afirma que proibição configurava censura prévia
Letícia Sales Publicado em 03/03/2026, às 14h06
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta terça-feira (3) a exibição do documentário Escravos da Fé: Os Arautos do Evangelho, produzido pela Endemol Shine e adquirido pela Warner Bros. Discovery, responsável pela plataforma HBO Max.
A decisão derruba liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que havia suspendido a veiculação da obra até o fim de uma disputa judicial envolvendo a congregação religiosa retratada na produção.
A associação que representa os Arautos do Evangelho recorreu à Justiça para impedir o lançamento, sob o argumento de que os fatos abordados no documentário também são objeto de investigação criminal sigilosa conduzida pela Promotoria de Caieiras, em São Paulo. A entidade alegava risco de violação de segredo de Justiça e prejuízo à sua imagem.
Ao analisar o caso, Dino considerou que a decisão do STJ era incompatível com o entendimento consolidado do STF sobre liberdade de expressão. Para o ministro, impedir previamente a exibição de uma obra audiovisual configura censura, vedada pela Constituição.
“É inadmissível, como regra, a imposição de censura prévia”, escreveu Dino, ressaltando que eventual abuso poderá ser discutido posteriormente na esfera judicial, mas não presumido antes da divulgação do conteúdo.
A Warner argumentou que não integra o processo sigiloso nem teve acesso aos autos da investigação. A empresa afirmou ainda que o documentário foi produzido com base em apuração jornalística independente e que eventual coincidência de informações com o processo não comprova vazamento.
Na decisão, o ministro também afastou alegações de ataque à liberdade religiosa, destacando que o pluralismo de ideias permite o debate público sobre temas religiosos, desde que respeitados os limites legais.
O documentário, anunciado inicialmente para 2026, aborda controvérsias envolvendo os Arautos do Evangelho, incluindo denúncias de abuso e manipulação psicológica. Fundada em 1999 por João Scognamiglio Clá Dias e reconhecida pelo Vaticano em 2001, a associação passou por intervenção determinada pelo papa Papa Francisco em 2019, após investigação interna identificar problemas na condução da entidade.
Com a nova decisão do STF, a produção poderá ser lançada ainda no primeiro semestre, conforme previsão da produtora.