Com aprovação na Comissão de Constituição e Justiça, proposta que reduz jornada e altera modelo de trabalho segue para comissão especial e intensifica embate entre trabalhadores, empresas e governo.
Ana Beatriz Publicado em 23/04/2026, às 09h35
A proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 deu um passo relevante no Congresso Nacional após ser aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A decisão não trata ainda do mérito da proposta, mas confirma que o texto pode continuar tramitando dentro das regras constitucionais, abrindo caminho para uma das mudanças mais profundas nas relações de trabalho no Brasil nas últimas décadas.
A votação foi unânime entre os parlamentares da CCJ e analisou apenas a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição. Com isso, o tema segue agora para uma comissão especial, onde o conteúdo será debatido em detalhes antes de eventual votação em plenário.
A proposta reúne diferentes textos que tramitam em conjunto. Entre eles, está a PEC que propõe o fim da escala de seis dias de trabalho para um de descanso, além da redução gradual da jornada semanal de trabalho, atualmente limitada a 44 horas, para até 36 horas.
Outra versão em discussão prevê um modelo ainda mais profundo de mudança, com a adoção de uma jornada de quatro dias por semana, ampliando o período de descanso dos trabalhadores e reconfigurando a lógica tradicional do mercado de trabalho brasileiro.
Hoje, a escala 6x1 é amplamente utilizada em setores como comércio, serviços, restaurantes e shoppings centers, exigindo seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de folga. O modelo é alvo de críticas de movimentos sociais e especialistas, que apontam impactos negativos na saúde física e mental dos trabalhadores, incluindo desgaste, estresse e dificuldade de conciliar vida profissional e pessoal.
A discussão sobre o fim desse modelo ganhou força nos últimos anos, impulsionada tanto por mobilizações sociais quanto por mudanças globais no mercado de trabalho, como testes de semanas reduzidas em países da Europa e debates sobre produtividade e qualidade de vida.
Apesar do avanço político, a proposta ainda enfrenta resistência significativa. Setores empresariais alertam para possíveis impactos econômicos, incluindo aumento de custos operacionais, necessidade de contratação de mais funcionários e efeitos sobre produtividade. Estudos citados durante o debate indicam que a mudança pode gerar impacto de até 1 por cento do Produto Interno Bruto, dependendo da forma de implementação.
Por outro lado, defensores da proposta argumentam que a redução da jornada pode melhorar a qualidade de vida, reduzir afastamentos por problemas de saúde e aumentar a produtividade no médio prazo, além de alinhar o Brasil a tendências internacionais de flexibilização do trabalho.
O governo federal também tem sinalizado apoio à discussão, defendendo modelos que combinem redução da jornada com manutenção salarial e ampliação do tempo de descanso. A proposta dialoga com outras iniciativas em análise no Congresso que buscam modernizar as relações trabalhistas e responder às novas demandas do mercado e da sociedade.
A tramitação, no entanto, ainda está longe de um desfecho. Para que a proposta seja aprovada, será necessário passar por comissão especial, votação em dois turnos na Câmara e no Senado, com quórum qualificado. Trata-se de um processo complexo que tende a intensificar o embate político nos próximos meses.
O avanço na CCJ, porém, já coloca o tema no centro do debate nacional. A discussão sobre o fim da escala 6x1 deixa de ser apenas uma pauta social e passa a ocupar espaço estratégico dentro da agenda econômica e política do país.