Missão formada por integrantes do Departamento de Estado previa reuniões em Brasília antes das eleições de outubro e despertou preocupação no governo brasileiro sobre uma possível tentativa de deslegitimar o sistema eleitoral.
Ana Beatriz Silva Publicado em 25/07/2026, às 15h30
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, preparou o envio de dois integrantes do Departamento de Estado ao Brasil para tratar do sistema eleitoral brasileiro às vésperas das eleições gerais de outubro.
A missão teria como integrantes Riley M. Barnes, secretário assistente do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário assistente adjunto da mesma área. Os dois são indicados políticos da atual administração norte-americana e planejavam viajar a Brasília nos dias seguintes à revelação do caso.
Segundo informações publicadas inicialmente pelo jornal The Washington Post, a delegação pretendia levantar questionamentos sobre a segurança e a integridade das urnas eletrônicas utilizadas no Brasil. O plano também foi confirmado posteriormente pela Reuters, com base em relatos de autoridades brasileiras que acompanharam as articulações diplomáticas.
O Departamento de Estado confirmou ao jornal norte-americano que Barnes e Samson planejavam viajar ao Brasil. A pasta, no entanto, não detalhou publicamente quais reuniões seriam realizadas nem respondeu diretamente aos questionamentos sobre o objetivo político da missão.
Governo brasileiro suspeitou de relatório contra as urnas
Integrantes do governo brasileiro demonstraram preocupação com a possibilidade de os emissários procurarem críticos do sistema eletrônico de votação e utilizarem essas manifestações na elaboração de um relatório contra as urnas brasileiras.
A suspeita apresentada por autoridades ouvidas pelo Washington Post era de que o documento poderia ser usado posteriormente para alimentar dúvidas sobre a legitimidade das eleições de 2026. As fontes falaram sob condição de anonimato devido à sensibilidade diplomática do episódio.
Na avaliação dessas autoridades, uma missão estrangeira com o objetivo de questionar o processo eleitoral poderia interferir no ambiente político brasileiro e fortalecer discursos de contestação ao resultado da votação.
Até a divulgação das primeiras informações, porém, o governo dos Estados Unidos não havia apresentado publicamente um documento que comprovasse falhas ou vulnerabilidades no sistema eleitoral brasileiro.
Viagem ocorre em meio a novas críticas às urnas
A preparação da missão aconteceu depois de novos questionamentos sobre as urnas eletrônicas ganharem espaço no debate político.
Durante um encontro com diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro defendeu o envio de observadores internacionais para acompanhar as eleições e associou o sistema brasileiro à empresa Smartmatic, envolvida em controvérsias eleitorais em outros países.
O Tribunal Superior Eleitoral afirmou que a informação é falsa. Segundo a Corte, a Smartmatic não fornece urnas eletrônicas nem desenvolve os programas utilizados na votação brasileira.
O projeto das urnas e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é administrado pela própria Justiça Eleitoral. A empresa prestou apenas serviços específicos de conexão de dados e treinamento de profissionais em contratos anteriores, sem participar da programação ou da operação dos equipamentos.
Flávio Bolsonaro declarou que não havia colocado em dúvida a integridade do sistema eleitoral. Mesmo assim, autoridades brasileiras avaliaram que a fala e a preparação da missão norte-americana poderiam contribuir para o crescimento de narrativas de desconfiança nas redes sociais.
Histórico de questionamentos
As urnas eletrônicas também foram alvo de críticas recorrentes do ex-presidente Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022. Naquele período, Bolsonaro reuniu embaixadores estrangeiros para apresentar alegações sem comprovação sobre possíveis vulnerabilidades no sistema.
O Tribunal Superior Eleitoral concluiu posteriormente que o ex-presidente usou indevidamente o cargo e os meios de comunicação naquele encontro. A decisão tornou Bolsonaro inelegível até 2030.
Agora, com a proximidade de uma nova eleição presidencial, autoridades brasileiras temem que questionamentos semelhantes sejam retomados com apoio político internacional.
Sistemas podem ser fiscalizados
O calendário eleitoral garante que entidades autorizadas tenham acesso antecipado aos sistemas desenvolvidos pelo TSE para realizar inspeções e acompanhar os trabalhos de preparação.
O acesso aos sistemas das Eleições de 2026 está previsto desde 4 de outubro de 2025, um ano antes do primeiro turno. Partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Congresso Nacional, universidades e outras instituições autorizadas podem participar das etapas de fiscalização e auditoria.
A Justiça Eleitoral também realiza procedimentos como inspeção dos códigos fonte, testes públicos de segurança, verificação das assinaturas digitais, auditorias de funcionamento das urnas e conferência dos sistemas de totalização.
O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 será realizado em 4 de outubro. Mais de 155 milhões de pessoas estarão aptas a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Caso seja necessário, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
Cresce tensão entre Brasil e Estados Unidos
A missão preparada pelo governo Trump ampliou a tensão diplomática entre Brasília e Washington.
Além das divergências envolvendo o processo eleitoral, os dois governos acumulam conflitos relacionados a tarifas comerciais, plataformas digitais, decisões do Supremo Tribunal Federal e à aproximação de integrantes da família Bolsonaro com a administração norte-americana.
A possível atuação de representantes estrangeiros em torno das urnas coloca no centro do debate a soberania brasileira e os limites da participação internacional no acompanhamento das eleições.
Embora missões de observação eleitoral sejam comuns e possam contribuir para a transparência dos pleitos, a preocupação manifestada por autoridades brasileiras estava relacionada ao possível uso político da viagem para produzir questionamentos sem fundamentação técnica contra o sistema de votação.