EXCLUSIVO

“Tenho mais tempo lutando por justiça do que tive com meu filho”, diz pai de Henry Borel

Após quatro anos da morte do menino, a Justiça marcou para março o júri popular de Monique Medeiros e do ex-vereador Jairinho, apontados como responsáveis pelo crime

Leniel Borel segue na luta por justiça pela morte do menino Henry - Imagem: Reprodução | Redes Sociais

Lívia Gennari Publicado em 21/11/2025, às 10h00

A Justiça do Rio de Janeiro marcou para 23 de março do ano que vem, às 9h, o júri popular de Monique Medeiros e do ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, acusados pela morte do menino Henry Borel, de 4 anos, em março de 2021. A decisão reacendeu dores e expectativas no pai da criança, Leniel Borel, que há quase quatro anos acompanha cada etapa do processo.

“Recebi essa notícia com um misto de dor e esperança”, disse ele, em entrevista exclusiva ao Diário de São Paulo." Ver a data marcada é como reabrir uma ferida que nunca cicatrizou. Eu tenho mais tempo lutando por justiça pelo Henry do que o tempo que tive com ele em vida", afirmou Leniel

Henry morreu no apartamento onde vivia com a mãe e o então padrasto, na Barra da Tijuca. Segundo o laudo do Instituto Médico Legal, a causa da morte foi uma hemorragia interna por laceração hepática causada por ação contundente. Os exames apontaram 23 lesões pelo corpo da criança. O Ministério Público afirma que Henry foi vítima de agressões anteriores e que Monique sabia da violência.

Henry Borel, vítima do caso que vai a júri popular | Imagem: Reprodução

"Chegar ao júri é dizer ao Brasil que a vida do meu filho importa"

Para Leniel, a marcação do julgamento representa um marco em uma caminhada exaustiva e necessária: “Essa etapa confirma que nossa luta não foi em vão." afirma. “Acredito que o júri popular traz uma dimensão maior de justiça, é a sociedade olhando para o caso e dizendo o que aceita ou não aceita em relação à violência contra crianças.”

O pai de Henry acredita que a participação de jurados amplia a sensação de justiça:
“Quando cidadãos comuns se sentam no lugar de jurados, levam consigo a visão de pais, mães, avós. Espero que esse júri seja um recado claro de que o Brasil não vai tolerar a morte de uma criança dentro de casa sem resposta", diz Leniel.

“Nunca vi arrependimento. Eles tentam se colocar como vítimas”

Ao avaliar a postura de Monique e Jairinho, Leniel é categórico:
“O que mais me fere é nunca ter visto um gesto verdadeiro de arrependimento. O que vi foram versões mudando, tentativas de distorcer os fatos. Monique não buscou justiça pelo Henry em nenhum momento.”

Desde o início das investigações, Monique e Jairinho sustentaram que Henry sofreu um acidente no apartamento onde moravam, na Barra da Tijuca. À polícia, afirmaram que o menino teria se ferido em uma queda e que foi encontrado desacordado no quarto antes de ser levado ao hospital, já sem vida.

O médico e ex-vereador Jairinho, e a professora Monique Medeiros | Imagem: Reprodução

As defesas sustentaram essa versão ao longo do processo, apontando supostas inconsistências nos laudos policiais. A hipótese de acidente, porém, foi descartada pelos exames oficiais, que identificaram hemorragia interna causada por múltiplas lesões compatíveis com agressões. O Ministério Público também refutou a versão apresentada pelos réus e afirmou que o conjunto de provas, incluindo laudos periciais e relatos de episódios anteriores de violência, era suficiente para incriminar o casal.

"Não tenho medo da verdade"

A decisão da Justiça também reafirma que cada defesa poderá apresentar até sete testemunhas no tribunal. A medida atende ao rito do júri popular e abre espaço para que os réus tentem reforçar suas versões durante o julgamento. Sobre isso, Leniel Borel diz não se preocupar:

“Eu não tenho medo da verdade. O que me tranquiliza é o conjunto robusto de laudos e perícias que falam por si. Que sejam ouvidas quantas testemunhas forem necessárias, desde que prevaleçam os fatos e a proteção da infância", afirma.

Pai pede julgamento pautado em provas: “Henry não podia se defender”

Leniel afirma que espera um julgamento atento às evidências técnicas e ao contexto em que o crime ocorreu: “Eu espero que o júri olhe para os laudos, para as contradições de versões, para o fato de que o Henry não podia se defender, não podia fugir, não podia pedir socorro sozinho. Ele dependia totalmente dos adultos ao seu redor”, diz.

Para ele, os jurados não devem se deixar levar por narrativas criadas para confundir, mas pelo histórico do caso e pela lógica dos fatos. “Estão decidindo sobre a vida de uma criança que foi interrompida de forma violenta.”

O pai de Henry confirma que estará no plenário em março, tanto como pai quanto como assistente de acusação. “Sei que será um dos dias mais difíceis da minha vida, mas o Henry merece que eu esteja lá. Não quero vingança, quero Justiça. Estarei ali não só por ele, mas por todas as crianças que precisam que esse julgamento seja um marco na forma como o Brasil trata a violência infantil", declara.

“Transformei o luto em luta”

A trajetória até essa fase do processo, segundo o pai de Henry, tem sido marcada tanto por violência emocional quanto por resiliência.

“O mais difícil é acordar todos os dias sabendo que meu filho não está aqui. Dói revisitar laudos, fotos, depoimentos. Dói ler mentiras sobre mim. Mas nada dói mais do que imaginar o que o Henry sofreu naquela noite.

Leniel é firme e diz que continuará usando sua voz para que o caso avance com transparência perante á Justiça: “Eu não tive escolha: ou eu afundava na dor, ou transformava o luto em luta. Faço um apelo para que a sociedade acompanhe esse julgamento e lembre que a vida de uma criança importa".

Leniel Borel criou projetos e ações de proteção a crianças após a morte do filho | Imagem: Reprodução

“Não quero que o Henry seja lembrado apenas como um caso policial”

O pai encerra dizendo como espera que o filho seja lembrado durante o julgamento:

“Quero que pensem nele como uma criança real, com rosto, nome e história, não como um processo. Um menino alegre, carinhoso, que tinha sonhos que nunca pôde realizar. Se a memória do Henry puder gerar proteção para outras crianças, então o amor dele continuará transformando o mundo. Henry vive em cada criança que salvamos. Meu filho nunca será esquecido", afirma.

Leniel e Henry, em registro antes do crime | Imagem: Redes Sociais

Com a data do júri popular definida, o caso Henry Borel entra em uma nova fase após quase quatro anos de tramitação. O julgamento deve reunir testemunhos, laudos periciais e as versões apresentadas pelas defesas e pela acusação, oferecendo ao tribunal as bases para a análise final dos fatos.

A expectativa é de que o plenário, em março, permita que todas as etapas do processo sejam examinadas de forma transparente, diante da sociedade, antes da decisão dos jurados.

julgamento rio de janeiro justiça JAIRINHO HENRY BOREL Monique Medeiros violência infantil Leniel Borel

Leia também