Piloto acusa ministro do STF e senador de participação em suposto esquema de corrupção ligado a investigados do PCC

Em vídeos divulgados nas redes, Mauro Mattosinho relata voos, transporte de dinheiro em espécie e possíveis conexões entre autoridades e empresários foragidos

Denúncia de ex-piloto envolve o senador Ciro Nogueira e o ministro Dias Toffoli - Imagem: Reprodução

Lívia Gennari Publicado em 03/02/2026, às 14h52

Um conjunto de vídeos divulgados nas redes sociais por Mauro Matosinho, ex-piloto de uma empresa de táxi aéreo no interior de São Paulo, reacendeu debates sobre o uso de aeronaves privadas e levantou dúvidas sobre possíveis interações entre o crime organizado, operadores financeiros e figuras centrais da política nacional.

As declarações, apresentadas pelo próprio piloto, ainda não contam com confirmação de autoridades investigativas, mas têm repercutido intensamente nos bastidores de Brasília.

Matosinho, que trabalhou na Táxi Aéreo Piracicaba (TAP), passou a publicar depoimentos em novembro de 2024. Nas gravações, ele descreve voos que teria realizado para empresários hoje investigados e para passageiros que, segundo afirma, incluíam autoridades federais. Em vários trechos, o piloto associa essas operações ao que descreve como movimentações atípicas de dinheiro vivo e vínculos com alvos da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal.

Relatos ligam Toffoli e Ciro Nogueira a voos suspeitos

Em publicação mais recente, Mattosinho relembra de um voo no qual teria viajado o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. O piloto afirma que o trajeto envolveu Brasília, Ourinhos e o resort Tayayá, local citado em reportagens que mencionaram investigações financeiras ligadas ao Banco Master e ao fundo REAG. O ministro não comentou as declarações, e não há confirmação de que o transporte tenha ocorrido, de fato, no contexto narrado.

O ex-piloto também menciona o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, ao relatar que teria recebido, de seu superior na TAP, a ordem de transportar uma sacola com dinheiro destinada ao parlamentar. Mattosinho diz que a orientação partiu de Epaminondas Xenu, então dirigente da empresa, e que o pacote teria sido embarcado em São Paulo em direção a Brasília. O senador não reconhece a acusação, e não há comprovação material dos supostos valores mencionados.

Denúncia inclui alvos da PF

Os empresários citados pelo piloto como proprietários de aeronaves envolvidas nos voos — Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamed Mourad, apelidado de “Primo” — tornaram-se alvos de mandados de prisão em outubro de 2024.

Roberto Leme da Silva, o ‘Beto Louco’ e Mohamed Mourad, o 'Primo' alvos de operação da PF | Imagem: Reprodução

Ambos são investigados na Operação Carbono Oculto, que apura a atuação de um grupo suspeito de lavar recursos para o Primeiro Comando da Capital (PCC). As defesas negociam acordos de colaboração premiada em diferentes esferas, sendo um deles com o Ministério Público de São Paulo. Os empresários negam ligação com o crime organizado.

Piloto cita rotina de lavagem de dinheiro e corrupção

Segundo Mattosinho, os pagamentos em espécie seriam rotineiros em algumas das operações aéreas. Ele afirma ter presenciado negociações envolvendo quantias elevadas e relata que parte dos funcionários se referia ao dinheiro como “carga perigosa”.

As menções também alcançam dirigentes partidários. O piloto cita o presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, como suposto proprietário de jatinhos utilizados tanto por políticos quanto por investigados. Rueda nega envolvimento com práticas ilícitas.

Depoimento à PF

Antes de tornar públicas suas falas, Mattosinho prestou depoimento à Polícia Federal em 2023. Na ocasião, segundo investigadores, não foram reunidos elementos suficientes para instaurar um inquérito a partir de seu relato.

Ainda assim, o avanço de operações paralelas e a multiplicação de seus vídeos reabriram o debate sobre lacunas regulatórias no setor de aviação executiva, a movimentação de altas quantias em espécie e o papel de operadores financeiros já investigados em esquemas de ocultação de patrimônio.

Apesar da gravidade das acusações, até o momento nenhuma autoridade confirmou os episódios narrados pelo ex-piloto.

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