CRIME ORGANIZADO

Mapeamento do MPSP revela presença do PCC em 28 países e atuação estratégica no exterior

Relatório aponta que a facção usa prisões estrangeiras para recrutar membros, ampliar rotas de tráfico e estabelecer bases estáveis fora do Brasil

PCC: Facção paulista com forte atuação no tráfico, controle prisional e expansão internacional - Imagem: Marie Hippenmeyer / AFP

Lívia Gennari Publicado em 24/06/2025, às 18h58

Um levantamento inédito do Ministério Público de São Paulo (MPSP), revelou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) está presente em ao menos 28 países distribuídos por quatro continentes.
A facção atua de maneira organizada no exterior, utilizando prisões estrangeiras para recrutar novos membros e articulando operações de tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro.

A maior parte dos integrantes do PCC fora do Brasil concentra-se na na América Latina, especialmente em países da América do Sul. Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai lideram em número de membros da facção, sendo áreas estratégicas para a expansão do tráfico de drogas e armas, devido às fronteiras com o Brasil e pela produção de cocaína, principal produto exportado para a Europa pela organização.

A facção também atua em vários países ao redor do mundo, como Alemanha, Argentina, Bélgica, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Guiana Francesa, Guiana, Holanda, Inglaterra, Irlanda, Itália, Japão, Líbano, México, Peru, Portugal, Sérvia, Suíça, Suriname e Turquia, demonstrando a ampla abrangência internacional de suas operações criminosas.

Facção instala residências e recruta novos membros em presídios

O relatório, que tem sido apresentado a representações diplomáticas brasileiras, visa reforçar a cooperação internacional no combate ao crime organizado. De acordo com o documento, os países estrangeiros não são utilizados apenas como pontos de passagem ou para negociações pontuais.
Há evidências de que membros do PCC mantenham residências fixas nesses locais, estabelecendo estruturas estáveis e ampliando sua rede criminosa.

A infiltração em presídios internacionais tem se tornado uma tática constante do grupo, considerada, inclusive, uma “marca registrada” da facção. Essa estratégia possibilita que a organização recrute novos membros, além de fortalecer parcerias no mundo do crime e expandir suas atividades ilícitas em território estrangeiro.

O levantamento foi elaborado com base em informações de inteligência produzidas a partir do monitoramento de setores internos do grupo, como a "Sintonia dos Estados" e a "Sintonia dos Países", núcleos responsáveis por coordenar a expansão da facção fora de São Paulo e do Brasil. As investigações envolveram quebras de sigilo telefônico e telemático, além da troca de dados com autoridades internacionais.

Segundo os promotores responsáveis, a consolidação do PCC em diferentes países representa um avanço significativo da facção no cenário do crime organizado transnacional e exige uma resposta coordenada entre os sistemas de Justiça e segurança pública de diversos governos.

PCC: de São Paulo para o mundo

O Primeiro Comando da Capital (PCC) foi fundado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, no interior de São Paulo. Inicialmente, o grupo reunia menos de 10 presos que se uniram para se proteger da perseguição de outros detentos e evitar abusos dentro dos presídios, especialmente após o Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992.

O grupo rapidamente se estruturou como uma facção criminosa com forte hierarquia, e ao longo dos anos, ampliou suas atividades para além dos presídios, envolvendo-se em tráfico de drogas, armas, contrabando e lavagem de dinheiro. Atualmente, é considerado uma das maiores organizações criminosas do Brasil, com ramificações em diversos estados e países.

Com mais de 30 anos de atuação, o grupo criminoso já reúne cerca de 40 mil integrantes e fatura aproximadamente R$ 1 bilhão por ano, de acordo com o Ministério Público de São Paulo, principalmente por meio do tráfico internacional de drogas. Conforme relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), o PCC está presente em cadeias de 24 estados brasileiros, estando ausente apenas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

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