Banco Master

Gestor aponta dono oculto no caso Master e diz que Vorcaro era “pau mandado”

Em depoimento à CPI, Vladimir Timerman afirma que Nelson Tanure está entre os principais nomes por trás do banco

Vladimir Timerman, gestor de fundos, durante depoimento na CPI. - Imagem: Reprodução/Agência Senado.

Erika Osti Publicado em 18/03/2026, às 18h10

O depoimento do gestor de fundos Vladimir Timerman à CPI do Crime Organizado, nesta quarta-feira (18), lançou novas suspeitas sobre a estrutura de comando do Banco Master e reforçou a tese de que o ex-controlador da instituição, Daniel Vorcaro, não exercia o poder real no negócio. Segundo ele, Vorcaro atuava como uma espécie de representante formal, enquanto decisões estratégicas estariam nas mãos de outros agentes, incluindo o empresário Nelson Tanure, apontado como uma das principais figuras por trás do banco.

Ao prestar esclarecimentos no Senado, Timerman afirmou que havia uma cadeia de comando mais complexa do que a apresentada oficialmente. Na avaliação dele, Vorcaro teria sido colocado como “rosto” da instituição para facilitar interlocuções políticas e institucionais, sem necessariamente dominar o funcionamento do esquema. O gestor disse ainda que Tanure seria “uma das cabeças” e possivelmente o nome de maior peso na hierarquia informal do banco.

As declarações foram dadas no contexto das investigações que apuram fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master, cuja atuação terminou com a liquidação da instituição. O depoente sustenta que há personagens que ainda não foram identificados no comando do esquema.

Durante a oitiva, Timerman detalhou o que classificou como um modelo de operação baseado na manipulação de balanços. Segundo ele, ativos sem valor relevante eram artificialmente valorizados para gerar lucro fictício e sustentar a aparência de solidez financeira.

Esse mecanismo, de acordo com o gestor, permitia ao banco continuar captando recursos no mercado, especialmente por meio de CDBs, usados para pagar investidores anteriores e manter o fluxo financeiro. Ele comparou a prática a um ciclo contínuo de captação para sustentar obrigações passadas.

Timerman citou como referência operações envolvendo ativos antigos e sem liquidez, que teriam sido utilizados para inflar resultados contábeis e atrair novos aportes.

O gestor também fez críticas à atuação de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários, o Banco Central e a Polícia Federal. Segundo ele, alertas sobre possíveis irregularidades foram feitos desde 2019, mas teriam demorado a gerar respostas efetivas.

Ele afirmou que investigações demoraram a avançar e classificou a atuação institucional como falha. As apurações ganharam força apenas em 2025, com a deflagração das operações Compliance Zero e Carbono Oculto, voltadas a investigar o esquema. Timerman disse ainda ter sofrido retaliações após as denúncias, incluindo mais de 30 ações judiciais, pedidos de prisão e ameaças de morte.

O relator da CPI, senador Alessandro Vieira, destacou que o caso pode ter atingido um número expressivo de investidores, especialmente aqueles com aplicações acima do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, hoje em R$ 250 mil.

Segundo ele, embora o volume financeiro envolvido pareça distante da realidade da maioria da população, há vítimas diretas espalhadas pelo país. Timerman acrescentou que o impacto pode ir além, com reflexos no sistema bancário. Na avaliação dele, o custo para recompor o fundo garantidor pode levar instituições financeiras a restringirem crédito, encarecendo empréstimos para consumidores.

A sessão também foi marcada pela ausência do ex-servidor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, que não compareceu após decisão do ministro do STF André Mendonça tornar facultativa sua presença. O presidente da comissão, senador Fabiano Contarato, criticou a medida e questionou a efetividade dos trabalhos diante da limitação para convocar investigados e testemunhas.

Em nota, o empresário Nelson Tanure negou qualquer vínculo societário ou controle sobre o Banco Master. Ele afirmou que nunca foi sócio, controlador ou beneficiário da instituição, direta ou indiretamente, e disse ter mantido apenas relações comerciais como cliente e investidor.

A defesa também contestou a credibilidade de Timerman, citando condenações judiciais do gestor e disputas anteriores entre os dois. Tanure afirmou confiar no esclarecimento dos fatos pelas autoridades.

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