"Só para brancos": acadêmicos de Direito gera polêmica por simular segregação racial

Caso na Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo reacende debate sobre racismo e práticas pedagógicas

O material foi elaborado com a finalidade pedagógica de fomentar a reflexão crítica entre os estudantes presentes - Imagem: Reprodução | Redes Sociais

Marina Milani Publicado em 20/11/2024, às 07h51

Alunos do 3º ano da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo (FDSBC), no ABC Paulista, causaram indignação ao fixarem um cartaz com a frase "Entrada permitida somente para brancos" na porta de uma sala de aula. A justificativa? Simular a segregação racial nos Estados Unidos, como parte de uma atividade acadêmica. O episódio, ocorrido no início de novembro, gerou denúncias, investigações e reações de estudantes e da sociedade.

De acordo com a instituição, o exercício fazia parte de uma aula de Sociologia e Antropologia e tinha como objetivo discutir as consequências jurídicas do racismo. Os alunos foram incentivados a analisar o filme Histórias Cruzadas (2011), que retrata a segregação racial no Mississippi dos anos 1960, e a propor reflexões críticas sobre o tema.

A faculdade alegou que o cartaz era um recurso inspirado em práticas de museus como o do Apartheid, na África do Sul, que utilizam elementos chocantes para sensibilizar os visitantes sobre o impacto da discriminação racial. “O material foi elaborado com a finalidade pedagógica de fomentar a reflexão crítica entre os estudantes presentes”, disse a instituição em nota.

No entanto, a abordagem não foi bem recebida por parte da comunidade acadêmica. Um estudante registrou um boletim de ocorrência por racismo, alegando que a atividade ultrapassou os limites da ética pedagógica e não considerou o impacto em um ambiente onde alunos negros já enfrentam desafios estruturais.

O caso trouxe à tona relatos de racismo recorrente na faculdade. Um aluno, que preferiu não se identificar, afirmou que práticas discriminatórias são frequentes na instituição. “Os alunos negros são poucos e não têm voz. Tudo o que a faculdade faz é promover palestras, mas sem escutar quem realmente vive o problema”, declarou.

Ele também criticou a forma como o professor conduziu a atividade, incentivando os estudantes a reproduzirem cenas do filme e até a se vestirem de acordo com o contexto histórico, algo que, segundo ele, não levou em conta o impacto emocional em um ambiente de aprendizado.

Após a denúncia, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) informou que o caso foi registrado no 1º Distrito Policial de São Bernardo do Campo. Após analisar os fatos, a polícia concluiu que não houve prática de ato criminoso.

A faculdade, por sua vez, reafirmou seu compromisso com a inclusão e a luta contra a discriminação, destacando a existência de núcleos de diversidade, canais de denúncia e debates sobre violência racial. No entanto, para muitos estudantes, as medidas tomadas até agora são insuficientes.

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