Letalidade policial

São Paulo bate recorde histórico de mortes em ações policiais em 2025

Relatório aponta que aumento da letalidade ocorre mesmo com queda nos principais indicadores de criminalidade no estado

Brasil registra 4.330 mortes por intervenção policial em 2025, com 86,3% das vítimas sendo negras, refletindo um padrão estrutural - Imagem: Reprodução/Francisco Cepeda/GESP

Letícia Sales Publicado em 01/07/2026, às 08h11

São Paulo fechou 2025 com o maior número de mortes decorrentes de intervenção policial desde que a série histórica começou a ser monitorada, em 2019. Foram 834 vítimas fatais, alta de 2,7% em comparação a 2024, de acordo com o relatório Pele Alvo, divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança.

O dado chama atenção justamente por contrariar a tendência observada em outros indicadores de segurança pública no estado. Enquanto as mortes provocadas por policiais alcançaram o maior patamar da série, os furtos recuaram 6,3%, os roubos caíram 18,8%, os latrocínios tiveram queda superior a 50% e os homicídios diminuíram 3,1% no mesmo período.

Para os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, esse descompasso revela que o crescimento da letalidade não está associado a uma escalada da violência, mas a uma escolha de gestão. "A letalidade responde menos à variação da criminalidade e mais a uma lógica de gestão da vulnerabilidade", afirma o relatório Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã.

O estudo é elaborado com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela Rede de Observatórios da Segurança, iniciativa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) realizada em parceria com pesquisadores de nove estados. Em território paulista, o monitoramento fica a cargo do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP).

Recorte racial e etário

Os dados de 2025 reforçam um padrão já identificado em edições anteriores da pesquisa: a desproporcionalidade racial das mortes causadas por policiais. Ainda que a população negra corresponda a 40,9% dos habitantes do estado de São Paulo, pessoas negras foram vítimas em 64,6% das ocorrências registradas no ano.

O levantamento aponta ainda que 98,7% dos mortos eram homens, e que a capital paulista concentrou quase um terço de todos os casos do estado — 30,5% do total.

Em relação à idade, a faixa mais atingida foi a de 18 a 29 anos, com 348 vítimas, seguida por adultos de 30 a 39 anos, com 241 mortes. Adolescentes de 12 a 17 anos somaram 34 vítimas, enquanto nenhuma criança de até 11 anos foi registrada. Confira a distribuição completa:

Câmeras corporais e mudança de gestão

O relatório recupera um capítulo importante da política de segurança paulista: a queda expressiva da letalidade policial registrada após a adoção das câmeras corporais pela Polícia Militar, em 2020. Segundo o documento, o número de mortes caiu de 814, em 2020, para 419, em 2022 — o menor índice da série histórica recente.

A partir de 2023, no entanto, a curva se inverteu. Foram 510 mortes naquele ano, 812 em 2024 e, agora, o recorde de 834 em 2025. Para os pesquisadores, essa reversão não é acidental. "O retorno dos índices negativos evidencia que a redução era possível, mas foi abandonada", diz o estudo.

A Rede de Observatórios relaciona esse crescimento ao enfraquecimento de instrumentos de controle sobre a atuação policial. Em junho de 2025, após acordo firmado no Supremo Tribunal Federal, o governo estadual passou a adotar um novo modelo de câmeras corporais nos batalhões, que deixaram de gravar de forma ininterrupta.

O documento também questiona o que descreve como uma aplicação desigual da tecnologia de vigilância em São Paulo. Enquanto sistemas voltados ao monitoramento urbano, como o Smart Sampa, da Prefeitura, seguem em expansão, as câmeras que deveriam fiscalizar a ação policial têm apresentado falhas justamente em momentos considerados críticos. "Há câmeras e câmeras: umas reforçam a ideia de eficiência, outras, quando mal utilizadas, escondem abusos", conclui o estudo.

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública informou, em nota, que "São Paulo é referência no uso de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) e monitoramento em tempo real das ações policiais. Desde 2023, o total de equipamentos foi ampliado para 15 mil, um aumento de 48,1% em relação a contratos firmados na gestão anterior."

Panorama nacional

Somando os nove estados monitorados pela Rede de Observatórios, o Brasil registrou 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, um crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. Entre os casos com informação de raça disponível, 86,3% das vítimas eram negras — o que, na média nacional, representa um risco quatro vezes maior de morte pela polícia para pessoas negras em comparação a pessoas brancas.

O perfil das vítimas também se repete: 64,8% tinham até 29 anos, a maioria residia em periferias e favelas, e o grupo era majoritariamente masculino. Além de São Paulo, Ceará (200 mortes), Maranhão (142) e Pará (632) também bateram recordes em suas respectivas séries históricas.

Para Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança, os números expõem a permanência de um padrão estrutural. "Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias. Se esse padrão se repete há sete edições do Pele Alvo, totalizando 28.799 mortes, fica evidente que ainda não existe uma política pública efetiva voltada para proteger essas vidas."

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que "promove ações permanentes para redução da letalidade policial, com aperfeiçoamento de protocolos operacionais, formação continuada de agentes, ampliação do uso de tecnologias e uso de equipamentos de menor potencial ofensivo." A pasta acrescentou que "todas as ocorrências de mortes por intervenção policial (MDIPs) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias das polícias, do Ministério Público e do Poder Judiciário", e que o programa Muralha Paulista integra atualmente mais de 125,5 mil câmeras interligadas, cobrindo mais de 70% da população do estado.

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