Medida busca ampliar abastecimento na Região Metropolitana diante de escassez e mudanças climáticas
Gabriela Nogueira Publicado em 09/10/2025, às 17h05
A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que abriga 39 municípios e mais de 20 milhões de habitantes, enfrenta há décadas um desafio significativo relacionado à escassez hídrica. Esse problema, que tem se agravado devido às mudanças climáticas, é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento sustentável da região.
Entre os anos de 2014 e 2016, a RMSP passou por uma das crises hídricas mais severas da sua história, levando o sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de grande parte da região, a atingir o nível zero. Em resposta a essa situação crítica, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e o governo estadual realizaram investimentos significativos em infraestrutura com o objetivo de aumentar a segurança hídrica e melhorar a gestão dos sistemas de distribuição.
No entanto, essas iniciativas mostraram-se insuficientes para resolver o problema histórico da falta d'água. Apesar do crescimento populacional ser relativamente baixo, com uma taxa estimada em 0,44% ao ano segundo o IBGE, a demanda por água continua a ser uma pressão constante sobre os recursos disponíveis, especialmente na esfera do consumo doméstico.
Frente a essa realidade, torna-se evidente a necessidade de uma reavaliação das estratégias de abastecimento hídrico. Tradicionalmente, os sistemas de captação e distribuição têm se baseado em chuvas regulares, mas as mudanças nos padrões climáticos têm resultando em precipitações irregulares. Temporais intensos são frequentemente seguidos por longos períodos de seca, o que complica ainda mais a gestão dos recursos hídricos.
Para garantir um abastecimento confiável para as próximas décadas, é crucial diversificar as fontes de água. Uma proposta que está sendo analisada pelo governo paulista e pela Sabesp envolve o uso de água tratada proveniente do esgoto doméstico. Essa abordagem é frequentemente recebida com ceticismo pela população, que teme contaminações; no entanto, isso é um equívoco.
A água reciclada já está sendo utilizada em várias indústrias na capital paulista e também para a limpeza em áreas públicas destinadas às feiras-livres, conforme regulamentação municipal. A unidade Aquapolo da Sabesp produz esse recurso hídrico livre de patógenos e contaminantes biológicos. A água tratada pode não ser potável devido à sua alta concentração de sais minerais, mas se houver um aprimoramento no processo de tratamento, será possível torná-la segura para consumo humano.
Um exemplo prático do uso eficiente da água reciclada pode ser encontrado na Estação Espacial Internacional, onde os astronautas utilizam sistemas similares para economizar espaço e peso ao invés de armazenar grandes quantidades de água para longos períodos.
Embora essa não seja uma ideia nova – já considerada em 1969 durante outra estiagem severa – atualmente o governo paulista está avançando no tratamento do esgoto com o objetivo de reinserir a água tratada nos mananciais locais. Essa iniciativa poderá agregar cerca de 2.800 litros por segundo ao sistema atual, representando um incremento significativo de 4% na capacidade total de abastecimento que atualmente é de 70 mil litros por segundo.
Esse conceito reflete princípios da economia circular: resíduos hoje podem se tornar insumos amanhã. Assim como a reciclagem de materiais como plástico e papel é vital para um futuro sustentável, a reintrodução da água tratada no ciclo hídrico é um passo fundamental para aumentar a resiliência do sistema hídrico da RMSP frente às mudanças climáticas. Trata-se de uma mudança conceitual que poderá servir como modelo para outras regiões do país.