A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) gerou polêmica ao utilizar blackface durante discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), nesta quarta-feira (18)
William Oliveira Publicado em 19/03/2026, às 11h06 - Atualizado às 11h42
A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) protagonizou uma polêmica durante a sessão de quarta-feira (18) na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ao utilizar a prática conhecida como blackface em pleno discurso no plenário. Eleita em 2022 com pautas alinhadas à direita — como posicionamentos antiaborto e defesa da guerra às drogas —, a parlamentar afirmou que o ato fazia parte de uma crítica à deputada federal Erika Hilton (PSOL), recentemente eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
Apesar do sobrenome, Fabiana Bolsonaro, de 30 anos, não possui vínculo com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Natural de Barrinha, no interior paulista, ela ganhou notoriedade política ao se tornar, aos 27 anos, uma das vice-prefeitas mais jovens do país. Em sua atuação parlamentar, defende bandeiras como o cristianismo, o agronegócio, o armamento civil, além de se posicionar contra a chamada “ideologia de gênero”, o aborto e o uso de drogas.
Durante seu discurso, a deputada pintou o rosto e parte do corpo de marrom, em uma tentativa de construir uma analogia entre identidade racial e identidade de gênero. Ao justificar o ato, afirmou que, assim como uma pessoa branca não se tornaria negra ao se maquiar, uma mulher trans também não poderia compreender integralmente as experiências de mulheres cisgênero. A fala gerou reação imediata no plenário.
A deputada Mônica Seixas (PSOL) interrompeu a manifestação e posteriormente registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), acusando Fabiana Bolsonaro de racismo. Além disso, parlamentares de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PSB protocolaram uma representação no Conselho de Ética da Alesp, solicitando a apuração por possível quebra de decoro parlamentar. Entre as punições possíveis está a perda do mandato.
No documento apresentado, os deputados argumentam que a conduta da parlamentar configura prática discriminatória com conteúdo racista e transfóbico, ultrapassando os limites da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar. Segundo a representação, o episódio teria sido “previamente concebido e intencional”, com o objetivo de provocar reações, o que caracterizaria dolo.
Nas redes sociais, Fabiana Bolsonaro afirmou que sua fala foi distorcida e que sua intenção era defender a representação de grupos por pessoas que vivenciam suas realidades.
Em nota, a Alesp informou que cabe ao Conselho de Ética analisar casos que eventualmente extrapolem a imunidade parlamentar, destacando que a Constituição garante aos parlamentares inviolabilidade por suas opiniões, palavras e votos em plenário.
O termo blackface refere-se à prática de pessoas não negras pintarem o rosto ou o corpo com tinta escura para representar pessoas negras, geralmente de forma caricatural.
A origem do blackface remonta ao século XIX, nos Estados Unidos, nos chamados minstrel shows, espetáculos em que atores brancos se maquiavam para ridicularizar a população negra, reforçando estereótipos racistas.
No Brasil, a prática também foi utilizada por décadas no teatro e na televisão, contribuindo para a exclusão de artistas negros e a perpetuação de imagens preconceituosas.
Atualmente, o blackface é amplamente condenado por especialistas e movimentos sociais. A prática pode ser considerada crime no Brasil, sendo enquadrada na Lei nº 7.716/1989 e na Lei nº 14.532/2023, que tratam de crimes de racismo e injúria racial.