Para driblar a escassez, médicos em São Paulo adotam medidas de urgência, que vão do etanol puro à infusão de vodca na veia
William Oliveira Publicado em 01/10/2025, às 13h12
A escassez do antídoto fomepizol para intoxicações por metanol em São Paulo levou médicos a adotarem alternativas emergenciais, informou o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Universidade de Campinas (Unicamp) em coletiva nesta terça-feira (30).
Embora o fomepizol seja considerado o tratamento mais eficaz, sua indisponibilidade no Brasil obriga hospitais a utilizarem etanol puro e hemodiálise. O etanol é administrado por sonda ou infusão para impedir a conversão de metanol em ácido fórmico, substância altamente tóxica.
Quando o ácido já está presente no organismo, a hemodiálise torna-se necessária. Em alguns casos, a vodca — principal destilado utilizado em situações como essa — é empregada como adjuvante, sempre sob rigorosa supervisão médica.
O governador Tarcísio de Freitas informou que já foram registrados 22 casos relacionados à intoxicação por metanol em São Paulo — 7 confirmados e 15 suspeitos — com cinco mortes já confirmadas.
Investigação e combate
Como resposta à crise, uma operação conjunta da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária interditou o bar Ministrão, na Alameda Lorena, além de outros dois estabelecimentos na Mooca e em São Bernardo do Campo, suspeitos de comercializar bebidas adulteradas.
Em um minimercado no Planalto Paulista, cerca de 40 garrafas foram apreendidas para análise. No total, aproximadamente 50 mil garrafas adulteradas foram retiradas de circulação. A ação identificou quatro distribuidoras suspeitas e resultou na prisão de dois envolvidos.
O trabalho de investigação busca rastrear a origem das bebidas e o fluxo financeiro por trás da distribuição. Proprietários já prestaram depoimentos e as apurações seguem em andamento.
Representantes da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad) classificaram o caso como um surto epidêmico, alertando que, diferente de ocorrências anteriores envolvendo uso de combustível, a intoxicação agora ocorre em bares e eventos sociais, aumentando o risco à saúde pública.
Por sua vez, a Senacon divulgou nota técnica com orientações urgentes aos comerciantes, recomendando aquisição apenas de fornecedores formais, verificação de lacres, atenção a preços suspeitos e odores estranhos, além de alertar para não realizar testes caseiros para verificar a qualidade das bebidas.