Agro

Produtores dos EUA criticam plano de Trump de abrir mercado à carne argentina

Setor agropecuário vê a medida como ameaça aos lucros e à competitividade do mercado nacional

A proposta de Trump de importar carne bovina argentina gera incertezas entre fazendeiros americanos preocupados com o mercado - Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Gabriela Nogueira Publicado em 21/10/2025, às 15h42

Recentemente, fazendeiros americanos manifestaram preocupação com a declaração do presidente Donald Trump, que sugeriu ampliar as compras de carne bovina argentina. A proposta surge em um momento de concorrência acirrada, após a Argentina conquistar maior participação nas exportações de soja para a China, principal mercado dos produtores norte-americanos.

No último domingo, Trump mencionou a intenção de importar carne bovina para conter os preços recordes no mercado interno. A ideia vem após o governo dos EUA conceder US$ 20 bilhões em assistência financeira à Argentina, país que o presidente classifica como aliado estratégico.

Os pecuaristas veem a proposta como uma ameaça à sustentabilidade do setor e ao conceito de mercado livre, sobretudo em um período de lucros elevados proporcionados pelo alto valor do gado.

“Esse plano apenas cria incertezas em um momento crucial para os produtores norte-americanos, sem oferecer soluções eficazes para reduzir os preços nas prateleiras dos supermercados”, afirmou Colin Woodall, presidente da Associação Nacional de Pecuaristas de Carne Bovina.
A insatisfação aumentou quando o governo negociou apoio financeiro à Argentina enquanto o país sul-americano ampliava as vendas de soja à China, que suspendeu parte das compras de produtos agrícolas dos EUA em meio às tensões comerciais.

“O último movimento que precisamos é recompensá-los com mais importações de carne bovina”, declarou Rob Larew, líder da União Nacional dos Agricultores.
Durante viagem a bordo do Air Force One, Trump voltou a defender a proposta:

“Se comprarmos um pouco de carne bovina argentina — e não estou falando de grandes volumes — isso ajudaria a Argentina, um país que consideramos um bom aliado.”
Um representante do Departamento de Agricultura dos EUA afirmou que a agência está concentrada em reduzir os preços da carne bovina e apoiar os pecuaristas por meio de programas de auxílio em desastres e outras iniciativas.

“Essas medidas, somadas aos esforços do presidente Trump para garantir mercados duradouros no exterior, enviam uma mensagem clara aos criadores: aumentem a produção e reconstituam seus rebanhos”, declarou o porta-voz.

A Casa Branca ainda não se pronunciou sobre pedidos adicionais de esclarecimento.

Analistas destacam que as importações argentinas — que representaram apenas 2% do total de carne bovina importada pelos EUA no ano passado — dificilmente terão efeito relevante no mercado. Segundo o Steiner Consulting Group, “os Estados Unidos não conseguirão importar carne bovina da Argentina em volume suficiente para provocar uma mudança significativa nos preços”.

Além disso, o aumento das importações pode desestimular a expansão dos rebanhos e a produção interna. Para Derrell Peel, economista agrícola da Universidade Estadual de Oklahoma, não há soluções rápidas para elevar a oferta doméstica, pois o ciclo de criação do gado leva cerca de dois anos.

“Uma entrada excessiva de carne bovina estrangeira pode comprometer a segurança alimentar no longo prazo”, alertou Zippy Duvall, presidente da Federação Americana do Bureau Agrícola.
Em janeiro, os estoques de gado nos EUA caíram ao nível mais baixo em quase 75 anos, resultado de sucessivas secas que reduziram as pastagens e elevaram os custos com ração. A situação se agravou desde maio, quando as autoridades suspenderam boa parte das importações de gado do México por risco da bicheira-do-Novo-Mundo, praga que afeta o rebanho. As tarifas sobre produtos brasileiros também têm limitado o volume de importações oriundas do Brasil.

Argentina Donald Trump China eua Carne mercado GADO IMPORTAÇÕES AGRICULTORES ALIMENTAR fazendeiros Bovina Rebanhos Pecuaristas

Leia também