Tarifas

Por que China não é alternativa para vender produtos atingidos por tarifa de Trump

Diferenças nas pautas de exportação e excesso de oferta global limitam capacidade da China de substituir o mercado americano para o Brasil

Diferenças nas pautas de exportação e excesso de oferta global limitam capacidade da China de substituir o mercado americano para o Brasil - Imagem: Reprodução / AFP

Marina Roveda Publicado em 29/07/2025, às 17h49

A poucos dias da entrada em vigor da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o governo federal intensifica negociações para tentar mitigar os impactos da medida. O vice-presidente Geraldo Alckmin tem mantido conversas com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, enquanto senadores brasileiros buscam interlocução direta com parlamentares norte-americanos. Paralelamente, a China manifestou disposição para aprofundar laços comerciais com o Brasil, em meio à escalada das tensões com os EUA.

Na segunda-feira (28), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, declarou que o país está pronto para "defender conjuntamente o sistema multilateral de comércio centrado na OMC e proteger a justiça e a equidade internacional", em crítica velada ao tarifaço de Donald Trump. Jiakun afirmou ainda que a China está aberta a “promover a cooperação com base em princípios de mercado”.

Apesar do aceno diplomático, especialistas ouvidos pela jornalista Patricia Marques, do G1, afirmam que as possibilidades de redirecionar exportações dos EUA para a China são limitadas — mesmo com ambos sendo os principais parceiros comerciais do Brasil.
“A pauta brasileira de exportações para os Estados Unidos é bastante distinta daquela voltada à China”, explica o economista Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e sócio da consultoria BRCG. Para os americanos, o Brasil exporta uma gama variada de produtos, incluindo itens manufaturados e de média e alta tecnologia, como aviões, além de bens intermediários como lingotes de aço — todos voltados à indústria americana.

Já as exportações para a China são majoritariamente commodities. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), entre janeiro e junho deste ano, 40% dos US$ 47,7 bilhões exportados à China foram em soja. Petróleo e minério de ferro responderam por outros 19% e 17%, respectivamente.

O professor Guilherme Klein, do Departamento de Economia da Universidade de Leeds, no Reino Unido, destaca que petróleo, carne bovina e minério de ferro são os únicos produtos com alguma chance de redirecionamento — por já estarem presentes na pauta com os dois países. No entanto, lembra que o mercado global de minério de ferro enfrenta um excesso de oferta, o que pressiona os preços para baixo. “Mesmo que o Brasil consiga vender para outros mercados, pode ter de fazê-lo com margens menores”, observa.

Klein pondera que a China, em uma estratégia geopolítica, poderia absorver parte do excedente brasileiro como gesto simbólico de aproximação. Contudo, ele alerta que o cenário permanece incerto. “É difícil separar o que será motivado por política externa daquilo que será guiado por interesses econômicos. E com Trump, que já mudou de posição em diversos temas, tudo é ainda mais imprevisível.”
Por enquanto, o Brasil segue tentando evitar que a tarifa entre em vigor no dia 1º de agosto. Caso contrário, a economia brasileira poderá enfrentar impactos significativos, sem garantias de que seus principais parceiros comerciais possam suavizar os efeitos dessa restrição.

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