Organização pede ação imediata de países e doadores para evitar catástrofe humanitária
Gabriela Nogueira Publicado em 11/11/2025, às 14h40
Os recentes cortes nos financiamentos destinados à ajuda humanitária têm gerado um cenário alarmante para milhões de refugiados e deslocados, que se preparam para enfrentar um inverno rigoroso sem a proteção necessária. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) lançou uma campanha emergencial, ressaltando a urgência da situação e a necessidade de apoio imediato.
A agência da ONU destacou que a queda nas temperaturas já está impactando gravemente os refugiados e deslocados internos, que se veem obrigados a suportar o frio intenso com recursos limitados. "Milhões de pessoas enfrentam um inverno severo sem assistência adequada, devido à redução significativa na ajuda humanitária", declarou o ACNUR.
Dominique Hyde, diretora de Relações Externas do ACNUR, recentemente retornou de uma missão na Síria e na Jordânia, onde testemunhou as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. "A escassez de orçamentos humanitários é crítica; o apoio que podemos oferecer neste inverno será substancialmente inferior ao necessário. Muitas famílias terão que suportar temperaturas extremas sem as condições básicas que muitos consideram garantidas, como abrigo seguro, isolamento térmico, aquecimento e roupas adequadas", enfatizou.
A situação é particularmente grave no Oriente Médio, onde o ACNUR relatou que mais de 1 milhão de sírios retornaram ao país após a queda do regime de Bashar al-Assad, apenas para encontrar suas casas devastadas pela guerra. As famílias mais vulneráveis agora enfrentam o frio sem qualquer proteção. Estima-se que cerca de 750 mil pessoas ficarão desassistidas em relação a itens essenciais como cobertores, colchões e roupas quentes durante esta temporada fria.
No Afeganistão, a situação é igualmente preocupante. Com nove em cada dez afegãos vivendo na pobreza, mesmo após décadas de conflito, as condições são alarmantes. Este ano, mais de 2,2 milhões de afegãos retornaram do Paquistão e do Irã em circunstâncias difíceis. Ademais, dois terremotos devastadores aumentaram ainda mais a vulnerabilidade das famílias às intempéries.
A Ucrânia também se destaca entre os locais críticos mencionados pelo ACNUR. Este é o quarto inverno consecutivo marcado por conflitos armados no país, aumentando as necessidades humanitárias à medida que os ataques se intensificam. As interrupções nos serviços básicos, como gás e eletricidade, são cada vez mais frequentes, com previsões de temperaturas caindo drasticamente até -20°C.
Dominique Hyde sublinhou a importância da mobilização da comunidade internacional para ajudar os deslocados: "As famílias afetadas não devem enfrentar o inverno sozinhas". Ela fez um apelo por maior financiamento para possibilitar ações emergenciais que visem proporcionar um mínimo de dignidade e segurança aos refugiados durante os meses mais frios.
A crise financeira tem raízes em decisões políticas tomadas desde março passado, quando cortes significativos foram realizados nos investimentos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), resultando no cancelamento de mais de 80% dos seus programas. Segundo um estudo da revista científica The Lancet, essa decisão poderá levar à morte prematura de mais de 14 milhões de pessoas até 2030, sendo uma parte significativa desse número composta por crianças com menos de cinco anos.