Na Espanha, diáspora venezuelana reage à queda do ditador Maduro

Maior comunidade de venezuelanos fora das Américas acompanha, em tensa expectativa, a captura do líder e debate os rumos da transição de poder

- Imagem: Reprodução | Redes Sociais

Jair Viana Publicado em 03/01/2026, às 14h19

Neste sábado, bares, residências e centros comunitários em Madri onde se reúne a numerosa diáspora venezuelana tiveram um ponto em comum: olhos fixos nas telas de televisão e smartphones. A notícia, inacreditável para muitos, da captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos ecoou de forma intensa na capital espanhola, que abriga a maior população de migrantes venezuelanos fora do continente americano.

A euforia inicial, no entanto, rapidamente deu lugar a um misto de alívio cauteloso e ansiedade sobre o futuro. “Estamos todos felizes”, disse uma figura proeminente da oposição à Reuters, por mensagem, pedindo anonimato devido à sensibilidade do momento. “Mas devemos garantir que a transição seja ordeira, pacífica e respeitosa.”

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a operação que removeu Maduro do poder e do país, afirmando que ele e sua esposa seriam levados para enfrentar a Justiça em Nova York. Na Espanha, onde residem importantes líderes oposicionistas como Edmundo González e Leopoldo López, a pergunta que paira no ar é: o que vem agora?

A batalha pela sucessão e a “legitimidade constitucional”

O vácuo de poder imediato já acendeu o primeiro debate crucial entre os exilados. A fonte da oposição contatada pela Reuters rejeitou veementemente a possibilidade de a vice-presidente Delcy Rodríguez assumir o comando. Em vez disso, defendeu a legitimidade dos líderes eleitorais que foram barrados por Maduro.

“O povo venezuelano votou em massa em Edmundo (González) e María Corina Machado. Edmundo é o presidente eleito com legitimidade constitucional”, argumentou a pessoa, referindo-se aos resultados da eleição de julho de 2024, contestada internacionalmente. Para a oposição radicada em Madri, qualquer transição deve ter como ponto de partida essa chapa eleitoral vitoriosa.

“O início de uma nova etapa”

Manuel García, ex-parlamentar que deixou a Venezuela após as eleições de 2024, viu na velocidade da queda de Maduro um sinal claro da fragilidade de seu regime. “A rapidez da destituição de Maduro demonstrou que seu governo não possuía a ‘capacidade militar da qual tanto se gabava’”, afirmou. “Hoje marca o início de uma nova etapa que culminará na consolidação da transição liderada por María Corina e pelo presidente Edmundo González.”

Especialistas locais analisam os movimentos nos bastidores. José Miguel Calvillo, professor de Relações Internacionais da Universidade Complutense de Madri, avalia ser “muito provável” que os EUA já tenham mantido conversas informais com setores do governo e das Forças Armadas venezuelanas para orquestrar a mudança. “Caso se confirme que a intervenção dos Estados Unidos teve apoio interno, espera-se que o governo de transição inclua figuras importantes da atual oposição”, projetou Calvillo.

Enquanto as lideranças políticas e analistas tentam decifrar os próximos capítulos, a comunidade venezuelana na Espanha vive um dia histórico, mas sem ilusões. A esperança de um retorno à democracia se choca com o medo de nova instabilidade. O sentimento geral, capturado em grupos de WhatsApp e rodas de conversa, é o de que uma longa e sombria página pode ter sido virada — mas o livro da Venezuela ainda está aberto, aguardando a escrita de um novo capítulo, cujo roteiro permanece incerto.

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