Considerado o "maestro" da economia americana, ele comandou o Banco Central dos EUA por quase duas décadas sob quatro presidentes; morte ocorreu por complicações do Parkinson
Letícia Sales Publicado em 22/06/2026, às 09h31
O economista Alan Greenspan, um dos principais condutores da política monetária global e o mais longevo presidente do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, morreu nesta segunda-feira (22) aos 100 anos de idade. A informação foi confirmada por sua esposa, a jornalista Andrea Mitchell, que detalhou que o economista faleceu em sua residência em decorrência de complicações da doença de Parkinson. Os dois foram casados por 29 anos.
Em comunicado oficial, Mitchell prestou uma homenagem ao legado público e à vida pessoal do marido:
“Alan faleceu em nossa casa esta manhã, aos 100 anos de idade, devido a complicações da doença de Parkinson”, afirmou Mitchell em comunicado. “Ele era um gigante que ajudou a moldar a economia dos EUA por décadas, sob presidentes de ambos os partidos, mas sempre foi honesto ao reconhecer seus erros”, disse ela. “Para mi, ele era meu marido, que moldou minha vida desde o nosso primeiro encontro em 1984. Ele tinha uma paixão desmedida por beisebol, pelo Washington Commanders, tênis, golfe e música, especialmente jazz”, acrescentou Mitchell. “Ele será lembrado por sua inteligência e sua bondade. Ser sua companheira de vida foi a maior alegria da minha vida.”
Nascido em Nova York em 1926 e influenciado na juventude pelo pensamento liberal da escritora Ayn Rand, Greenspan assumiu a liderança do Fed em 1987, indicado por Ronald Reagan. Ele permaneceu na posição por quase 19 anos, atravessando cinco mandatos e servindo também aos governos de George H. W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush. Sua habilidade em guiar os juros americanos durante crises agudas — como a "Segunda-Feira Negra" de 1987, a bolha da internet e o pós-11 de setembro — garantiu-lhe uma reputação quase mítica de estabilidade.
O auge do livre mercado e as controvérsias pós-crise
A filosofia de Greenspan era amplamente ancorada na desregulamentação financeira e na crença de que os mercados possuíam uma capacidade intrínseca de autorregulação. Sob sua tutela, os EUA viveram um dos períodos mais longos de expansão econômica da história moderna. Contudo, essa mesma postura de tolerância a investimentos de alto risco e juros baixos prolongados passou a ser duramente questionada anos mais tarde, apontada por analistas e investigações oficiais como um dos fatores que pavimentaram o caminho para o colapso imobiliário de 2007-2008.
Mesmo fora do cargo a partir de 2006, Greenspan manteve-se ativo no debate público como consultor e autor de peso, mantendo enorme prestígio institucional.
Trincheira recente pela autonomia do Fed
Nos últimos anos, diante de episódios de crescente pressão política sobre o banco central norte-americano, Greenspan uniu-se a outros nomes históricos do setor financeiro, como Janet Yellen e Ben Bernanke, para blindar a instituição. Ele assinou manifestos em defesa da autonomia do Fed e criticou publicamente as investigações e os desgastes impostos ao recente presidente do órgão, Jerome Powell.
Para Greenspan e seus pares, tentativas de interferência política na autoridade monetária assemelhavam-se a práticas instáveis de economias emergentes, colocando em risco a credibilidade global do dólar.
-Com informações da agência Reuters