Joel Le Scouarnec, de 74 anos, é acusado de cometer 299 crimes sexuais, incluindo o estupro de menores; Julgamento iniciou-se na última segunda-feira (24)
William Oliveira Publicado em 25/02/2025, às 12h47
O julgamento de Joel Le Scouarnec, um médico acusado de cometer 299 crimes sexuais, incluindo estupro de menores, teve início na última segunda-feira (24) em Vannes, no oeste da França. O réu, de 74 anos, não hesitou em confessar a prática de "atos abomináveis" no primeiro dia da audiência.
Durante sua declaração, Le Scouarnec expressou arrependimento e reconheceu o impacto duradouro de suas ações sobre as vítimas, muitas delas crianças na época dos abusos.
"Estou perfeitamente ciente hoje de que essas feridas são indeléveis e insubstituíveis, e não posso voltar no tempo", afirmou o médico, enfatizando sua intenção de assumir a responsabilidade por seus atos.
Seu advogado, Maxime Tessir, informou que Le Scouarnec admite a maioria das acusações. Ele sublinhou que o médico não pretende escapar das consequências legais de suas ações. O réu pode enfrentar uma pena de até 20 anos de prisão, devido a 111 acusações de estupro e 189 de agressão sexual ocorridas entre 1989 e 2014.
As vítimas do médico não esperam nada do julgamento, segundo Marie Grimaud, advogada representando 39 delas. No entanto, elas almejam recuperar um pouco de dignidade e consideração por parte do sistema judiciário.
Considerando a grande quantidade de vítimas envolvidas, foi necessária a criação de uma estrutura especial para acomodar o julgamento na pequena cidade de Vannes, que abriga menos de 55 mil habitantes. As vítimas e seus familiares assistem ao processo em uma sala anexa ao tribunal e serão convocados a depor no espaço principal.
A investigação que levou ao julgamento começou em 2 de maio de 2017 após uma denúncia feita por uma vizinha, que acusou Le Scouarnec de atacar sexualmente sua filha. Uma busca em sua residência resultou na descoberta de pornografia infantil e diários detalhando os crimes do médico.
Os registros revelaram que as agressões ocorreram ao longo de mais de duas décadas, com centenas de vítimas, principalmente crianças. Os métodos utilizados pelo médico incluíam abusos enquanto as vítimas estavam anestesiadas ou inconscientes durante procedimentos médicos.
Cécile de Oliveira, advogada de algumas vítimas, destacou que Le Scouarnec traiu seu juramento profissional da forma mais extrema. Em seus diários, ele documentava minuciosamente cada crime cometido, incluindo detalhes como data e local das agressões.
A polícia fez um cruzamento das informações contidas nos diários com os registros médicos do cirurgião para identificar as vítimas. Muitas delas não tinham ciência dos abusos sofridos devido ao estado em que se encontravam durante os incidentes.
Manifestação
A situação também gerou protestos diante do tribunal. Manifestantes criticaram o Conselho de Medicina por supostamente ignorar alertas sobre o comportamento inadequado do médico desde 2004. Naquela época, Le Scouarnec já havia sido identificado pelo FBI durante uma investigação relacionada à pornografia infantil.
Apesar das condenações anteriores e dos alertas sobre seu comportamento problemático, o médico continuou a exercer sua profissão sem restrições até se aposentar em 2017. Este julgamento ocorre em um momento em que a sociedade francesa está particularmente atenta a casos de violência sexual, especialmente após o caso de estupro em série de Gisèle Pelicot, pelo qual 51 homens foram condenados.