Guiana Francesa

França planeja prisão de segurança máxima na Amazônia e gera revolta

Ministro da Justiça defende construção de prisão, mas população local se opõe à transferência de prisioneiros perigosos para a região

A proposta do governo francês para uma nova prisão na Guiana Francesa levanta preocupações sobre o passado colonial e a segurança local. - Imagem: Divulgação / Ministério da Justiça da França

Marina Milani Publicado em 28/05/2025, às 10h50

A proposta do governo francês de construir uma nova prisão de segurança máxima em Saint-Laurent-du-Maroni, na Guiana Francesa, tem gerado uma onda de descontentamento entre a população local. A iniciativa visa abrigar traficantes de drogas e radicais islâmicos, levantando preocupações sobre os ecos do passado colonial do território.

De 1852 a 1953, a Guiana Francesa atuou como uma colônia penal, recebendo mais de 70 mil prisioneiros do império francês. O contexto histórico tem ressurgido nas discussões atuais, à medida que o ministro da Justiça da França, Gérald Darmanin, anunciou a intenção de erguer uma nova instalação prisional para "remover os criminosos mais perigosos" da sociedade francesa.

Durante sua visita à capital guianense, Caiena, Darmanin destacou a existência de "49 gangues de narcotraficantes" no território e justificou a construção da nova prisão como uma resposta à necessidade urgente de segurança. No entanto, a reação foi imediata: o deputado Davy Rimane classificou a decisão como arbitrária e desconsiderada, ressaltando que a população não foi consultada sobre um tema tão delicado.

Rimane afirmou à BBC News Mundo que transferir prisioneiros indesejados para a Guiana Francesa seria um retrocesso doloroso e que "não somos o lixo da França". Suas declarações refletem um sentimento generalizado entre os guianenses que veem na proposta uma tentativa de deslocar os problemas penitenciários da metrópole para seu território.

O ministro do Interior francês, Bruno Retailleau, defendeu publicamente a proposta, insistindo na necessidade de tratar criminosos com rigor. Ele argumentou que os traficantes representam um risco para a juventude local e que medidas drásticas são necessárias para combatê-los.

Além disso, em uma correspondência recente, Darmanin tentou reassesssinar o projeto ao presidente da comunidade territorial da Guiana, mas não abordou explicitamente as preocupações relacionadas à transferência dos prisioneiros considerados perigosos. Em contraste, o primeiro-ministro François Bayrou manifestou apoio à construção da prisão, desde que haja consulta aos representantes locais.

A Guiana Francesa é vista atualmente como um ponto crítico no tráfico internacional de drogas devido à sua proximidade com países produtores como Colômbia e Peru. Estima-se que cerca de 30% da cocaína consumida na França tenha origem nessa região. O novo presídio deverá ter capacidade para 500 detentos e custará aproximadamente 450 milhões de dólares, situado em uma área remota na floresta amazônica.

A história do local é marcada pela antiga colônia penal da Ilha do Diabo, onde as condições eram extremamente severas. O novo projeto tem sido criticado por especialistas em criminologia como uma forma de brutalidade penal e um retorno ao colonialismo. Marion Vannier, especialista na área, expressou preocupações sobre as condições sanitárias e o impacto psicológico sobre os prisioneiros isolados em áreas distantes.

A Coletividade Territorial da Guiana também se opõe fortemente ao projeto, caracterizando-o como uma repetição malfadada das práticas coloniais. Para muitos cidadãos guianenses, essa iniciativa representa não apenas uma ameaça à segurança pública mas também um insulto à memória histórica e cultural do território.

Com as vozes contrárias se intensificando e as críticas à proposta se multiplicando, a implementação deste projeto ambicioso pode estar ameaçada pela resistência local. O governo francês enfrenta um desafio significativo para equilibrar suas necessidades penitenciárias com as preocupações legítimas dos habitantes da Guiana Francesa.

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