Meio Ambiente

Do ar à comida: estudo revela alcance da poluição por microplásticos no Brasil

Estudo brasileiro confirma que poluição por micro e nanoplásticos atinge ecossistemas e alimentos consumidos diariamente

Estudo das universidades UFF, UFRJ e UERJ investiga efeitos dos microplásticos na saúde humana e na contaminação alimentar - Imagem: Reprodução/Senado Federal

Gabriela Nogueira Publicado em 18/10/2025, às 09h04

Pesquisadores das universidades Federal Fluminense (UFF), Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) têm se dedicado a investigar os impactos dos micro e nanoplásticos na saúde humana. Embora a presença desses materiais no meio ambiente seja amplamente reconhecida, as evidências sobre seus possíveis danos à saúde ainda estão em fase de comprovação. O estudo abrangeu a análise de 140 pesquisas realizadas em diversos países, incluindo o Brasil.

O professor Vitor Ferreira, do Instituto de Química da UFF, destaca que, apesar de os efeitos negativos do plástico no meio ambiente serem discutidos desde sua invenção na década de 1940, as micropartículas passaram a ser foco de atenção apenas nos últimos dez anos. “Os plásticos não se degradam naturalmente e se fragmentam sob a ação da luz solar em micropartículas e nanoplásticos, que se dispersam na água, no solo e no ar, eventualmente entrando na cadeia alimentar”, explica Ferreira.

Os resultados da pesquisa indicaram que micro e nanoplásticos foram encontrados em alimentos comuns, como açúcar, sal e mel. Além disso, peixes e frutos do mar mostraram-se fontes significativas de contaminação alimentar, ao ingerirem ou filtrarem essas partículas presentes nos oceanos e repassá-las a seus predadores, incluindo os seres humanos.

A contaminação por microplásticos se estende geograficamente, sendo identificada em animais desde a Amazônia até o Rio Grande do Sul. Também é importante ressaltar que esses materiais podem ser inalados ou absorvidos pela pele. Estimativas sugerem que um indivíduo pode consumir entre 39 mil e 52 mil microplásticos por ano — número que pode chegar a 121 mil se consideradas as partículas inaladas. Para quem consome exclusivamente água engarrafada, esse total pode aumentar em quase 90 mil.

Entretanto, os pesquisadores alertam que esses dados podem estar subestimados devido às limitações das técnicas atuais de detecção. Enquanto os microplásticos são relativamente simples de identificar, os nanoplásticos frequentemente escapam dos métodos convencionais de análise.

Após a entrada no organismo humano, essas partículas podem se acumular em órgãos como pulmões e boca ou alcançar a corrente sanguínea, depositando-se em diversos tecidos. Estudos recentes identificaram microplásticos até mesmo em placentas e cordões umbilicais, sugerindo a possibilidade de afetar fetos em desenvolvimento.

O próximo desafio da pesquisa é estabelecer uma relação causal entre a contaminação por microplásticos e problemas de saúde. Ferreira menciona que um estudo clínico já detectou microplásticos em 60% dos coágulos formados nas artérias analisadas, levantando hipóteses sobre sua relação com infecções e formação desses coágulos.

A nomenclatura “plástico” refere-se a uma variedade de polímeros sintéticos majoritariamente derivados do petróleo. Embora frequentemente associados a embalagens descartáveis, esses materiais também estão presentes em produtos como pneus e vestuário. Ferreira aponta que os aditivos utilizados na fabricação podem intensificar os riscos à saúde.

Diante desse cenário, o professor defende ações urgentes para mitigar a poluição plástica. “É fundamental ampliar a capacidade de reciclagem desse material para evitar seu descarte inadequado na natureza”, afirma Ferreira. Ele ressalta que esse processo depende tanto da conscientização individual quanto de iniciativas das indústrias e do poder público.

Além disso, Ferreira lembra que a Organização das Nações Unidas (ONU) tem buscado, desde 2022, estabelecer um tratado internacional para combater a poluição plástica. No entanto, o término das negociações entre os países já foi adiado duas vezes.

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