Joseph Kent deixa cargo e acusa governo Trump de agir sob pressão de Israel e desinformação sobre ameaça iraniana
Erika Osti Publicado em 17/03/2026, às 14h11
O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joseph Kent, renunciou ao cargo nesta terça-feira (17) em protesto contra a guerra no Irã e iniciou uma crise dentro do governo de Donald Trump ao expor divergências na política externa americana. Em carta pública, o ex-chefe da área afirmou que o conflito não se justifica por uma ameaça imediata e acusou aliados de terem influenciado a decisão por meio de pressão política e desinformação. “Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu.
Kent, que é veterano das forças especiais e ocupava um dos principais postos da comunidade de inteligência dos EUA, reforçou que o país persa não representava risco iminente. “O Irã não representava uma ameaça iminente à nossa nação”, afirmou. Na mesma carta, ele foi direto ao apontar a origem do conflito: “É evidente que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano”.
A saída marca a primeira ruptura de alto escalão dentro da atual administração em relação ao conflito. Kent também afirmou que houve uma campanha coordenada por autoridades israelenses e setores da mídia americana para convencer a Casa Branca de que um ataque preventivo seria necessário e traria uma vitória rápida, o que ele classificou como falso. “Altos funcionários israelenses e membros influentes da mídia americana promoveram uma campanha de desinformação”, disse. Segundo ele, esse movimento criou uma “câmara de eco” que levou o governo a acreditar em uma ameaça inexistente. “Isso era mentira e é a mesma tática usada para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque”, acrescentou. “Não podemos repetir esse erro.”
O conflito com o Irã se intensificou após a decisão de Trump de autorizar bombardeios a instalações nucleares iranianas em 2025, em ação coordenada com o governo de Benjamin Netanyahu. Na época, o presidente afirmou que as capacidades nucleares de Teerã haviam sido “aniquiladas” e defendeu negociações, que não avançaram. Novos ataques foram ordenados em fevereiro deste ano, ampliando a escalada militar e provocando retaliações iranianas em países vizinhos, além de tensões no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo global.
A guerra também aprofundou divisões internas entre apoiadores de Trump, especialmente entre setores conservadores que defendiam a promessa de evitar novos conflitos no Oriente Médio. Kent lembrou esse histórico ao se dirigir ao presidente. “As guerras no Oriente Médio são uma armadilha que roubam as preciosas vidas de nossos patriotas”, escreveu, ao citar posições defendidas por Trump no passado.
A Casa Branca reagiu com dureza às declarações. A porta-voz Karoline Leavitt afirmou que o ex-diretor fez alegações falsas e sustentou que havia “evidências fortes e convincentes” de que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos. “O presidente jamais tomaria essa decisão sem base em múltiplas fontes de inteligência”, disse. Trump, por sua vez, minimizou a saída e atacou o ex-auxiliar. “Ele foi um cara legal, mas muito fraco em segurança”, afirmou. “Estou feliz que ele saiu.”
Com mais de duas décadas de experiência militar e passagens por missões no Oriente Médio, Kent também citou motivos pessoais para sua decisão. Ele perdeu a esposa, militar da Marinha, em um atentado na Síria e afirmou que não poderia apoiar o envio de novas gerações para a guerra. “Não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer em um conflito que não traz benefício ao povo americano”, declarou.
Diante desse cenário, a saída de Joseph Kent amplia a pressão sobre o governo de Donald Trump ao evidenciar fissuras internas em uma área sensível como a segurança nacional. A renúncia não apenas expõe divergências sobre a condução da guerra, como também alimenta o debate dentro e fora dos Estados Unidos sobre os custos políticos, militares e econômicos de uma escalada prolongada no Oriente Médio.