Dossiê norte-americano expõe conexões, viagens e esquemas que buscavam captar jovens brasileiras para exploração sexual
Lívia Gennari Publicado em 12/02/2026, às 13h30
A nova leva de documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos trouxe à tona mais um elemento inesperado no caso Jeffrey Epstein: o bilionário, acusado de comandar uma rede internacional de exploração sexual, possuía um CPF brasileiro emitido em 2003 que ainda está ativo.
A Receita Federal confirma que há um cadastro no nome de Epstein, com data de nascimento registrada como 20 de janeiro de 1953. A legislação brasileira permite que estrangeiros sem residência fixa no país solicitem o documento, que pode ser feito de forma direta ou através de um procurador legalmente autorizado. Após a morte do titular, contudo, qualquer alteração ou solicitação ligada ao número só pode ser feita por inventariantes, familiares diretos ou beneficiários, dependendo da existência de bens no Brasil.
A descoberta acrescenta uma camada brasileira ao gigantesco dossiê sobre Epstein. O conjunto de arquivos divulgado pelo governo americano, estimado em cerca de 3,5 milhões de páginas, além de milhares de imagens e vídeos, descreve um padrão de atuação que se estendeu por mais de dez anos e incluiu esforços sistemáticos para recrutar meninas no Brasil, sendo algumas adolescentes, para fins de exploração sexual.
Epstein teria contado com 'agente' brasileira para recrutar jovens
Depoimentos presentes no material indicam que Epstein mantinha contatos regulares no país, onde viajava sob o pretexto de compromissos profissionais. Em uma dessas declarações, prestada à Justiça da Flórida em 2010, uma testemunha afirma que o bilionário contava com uma intermediária brasileira capaz de fornecer jovens, inclusive menores de idade, sempre que ele chegava ao Brasil.
O nome dessa mulher não aparece nos documentos, mas ela é descrita como alguém que teria trabalhado com Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e colaborador próximo de Epstei, foi acusado de tráfico de mulheres e de abusar de adolescentes, antes de sua morte em 2022.
Os relatos apontam também que Epstein custeava vistos e passagens para que jovens brasileiras pudessem viajar aos Estados Unidos. Em uma ocasião mencionada nos arquivos, quatro brasileiras teriam sido levadas a uma festa em uma das propriedades do empresário. Outros trechos fazem referência a depoimentos de vítimas que estimam que, ao menos 50 brasileiras estiveram em sua mansão.
Mercado da moda seria porta de entrada para o esquema
A estratégia de aproximação incluía o uso do mercado da moda como porta de entrada. Trocas de e-mails anexadas ao processo mostram que, em 2016, Epstein discutiu a compra de uma agência de modelos brasileira e até a criação de um concurso voltado a atrair milhares de jovens, com um investimento previsto de cerca de US$ 500 mil.
Em outras conversas, parceiros do bilionário cogitavam formar uma sociedade para adquirir uma revista de moda no país, um movimento que ampliaria a proximidade com garotas em busca de oportunidades no setor.
Embora não haja indicação explícita de que a aquisição da revista seria usada como um instrumento direto para exploração sexual, a proposta surge no contexto de estratégias que, segundo testemunhos, facilitavam a aproximação do bilionário com adolescentes e jovens brasileiras.