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Venezuela e Trump: 4 posições

Venezuela e Trump: 4 posições - Imagem gerada por IA

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 07/01/2026, às 08h56

A ação militar perpetrada por Donald Trump na Venezuela não foi apenas mais um episódio de pressão diplomática ou retórica agressiva. Na prática, ela funcionou como um revelador da verdadeira arquitetura das relações internacionais contemporâneas. Ao transformar a crise venezuelana em um palco de projeção de poder, Washington expôs não apenas seus métodos recorrentes de coerção, mas também como diferentes países se posicionam diante da hegemonia norte-americana.

Nesse contexto, é possível identificar quatro comportamentos distintos – quase tipológicos – que ajudam a compreender a dinâmica internacional em torno da Venezuela: os aduladores, os opositores, os temerosos e os eloquentes.

O primeiro grupo, o dos aduladores, é composto por países que se alinham de maneira automática e acrítica à estratégia dos Estados Unidos. Argentina e Israel figuram de maneira emblemática nesse bloco. Em ambos os casos, o apoio irrestrito à retórica de "restauração da democracia" ou ao "fim da ditadura madurista" revelou menos uma preocupação genuína com o povo venezuelano e mais a disposição de reafirmar lealdade política a Washington. Trata-se de um alinhamento que abdica de análise estratégica própria e reduz a política externa a um gesto de submissão simbólica.

No extremo oposto estão os opositores, representados sobretudo por China e Rússia. Esses países rejeitam frontalmente qualquer tentativa de mudança de regime promovida do exterior, não por afinidade ideológica com o governo venezuelano, mas por um princípio fundamental: a defesa da soberania estatal e da não intervenção. Para Pequim e Moscou, a Venezuela tornou-se mais um exemplo dos riscos sistêmicos associados à normalização de sanções unilaterais, reconhecimentos seletivos de governos e ameaças de uso da força como instrumentos legítimos da política internacional.

Entre esses dois polos emerge o grupo talvez mais revelador: o dos temerosos, no qual se insere a União Europeia. Presa a uma retórica normativa sofisticada, mas estruturalmente dependente do eixo transatlântico, a UE oscilou entre críticas moderadas, sanções simbólicas e apelos genéricos ao diálogo. O receio de contrariar Washington falou mais alto do que a coerência estratégica. O resultado foi uma postura ambígua, incapaz de influenciar positivamente a crise venezuelana ou de afirmar autonomia política real.

Por fim, destaca-se o grupo dos eloquentes, composto por países como Brasil, Chile, Espanha e México. Apesar de diferenças internas e orientações ideológicas distintas, esses Estados optaram por defender soluções diplomáticas, negociadas e regionalmente mediadas. Ao rejeitar tanto o alinhamento automático quanto a confrontação estéril, afirmaram uma verdade frequentemente ignorada: crises complexas não se resolvem por imposição externa, mas por processos políticos internos acompanhados --- e não dirigidos --- pela comunidade internacional. No entanto, sua efetividade diante de Washington é irrisória.

A estratégia de Donald Trump para a Venezuela, no entanto, tem seguido o roteiro clássico do intervencionismo norte-americano: pressão máxima, discurso moralizante e indiferença em relação aos efeitos sociais e econômicos das ações.

O caso venezuelano expõe com crueldade o dilema central da governança global no século XXI: como equilibrar o sacrossanto princípio da não- intervenção e da soberania com a responsabilidade de proteger populações civis em meio a crises humanitárias, econômicas e políticas profundas? A retórica redentora de Washington é facilmente desmascarada como pretexto para projeção de poder, mas isso não anula a realidade do sofrimento venezuelano. A comunidade internacional — e em especial os países “eloquentes” e a UE — falhou não apenas em frear a intervenção unilateral, mas também em construir um caminho crível e coletivo que respondesse simultaneamente à necessidade de proteger os direitos do povo e de respeitar a autodeterminação da nação. A falência não foi apenas do Direito Internacional, mas da imaginação política para aplicá-lo legítima e eficazmente em situações de colapso interno.

O futuro da Venezuela permanece incerto. Trump não apresentou um mapa do futuro, a não ser dizer que criaria uma “Venezuela com anabolizantes.” A Venezuela, conspurcada e arruinada pela tirania de Chavez e Maduro, tornou-se, também, um espelho de um mundo que teme a Trump. Um espelho que revela quem se submete, quem resiste, quem teme e quem fala.

Os Estados Unidos não são salvadores, e nenhum país constrói seu futuro por delegação. Cabe a cada nação encontrar, por si mesma, o seu próprio e melhor caminho. Podemos não gostar do Direito Internacional por acharmos inefetivo, hipócrita ou tendencioso. Mas se esse tipo de ação continuar -- e tornar-se a regra -- nos fará sentir muita falta do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas.

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