Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 13/08/2025, às 09h44
Ao longo da história, não foram poucos os momentos em que a aparência de justiça nas relações internacionais se dissipou, revelando a mecânica crua do poder. Hoje, essa dinâmica se manifesta no comércio global liderado pelos Estados Unidos — apresentado, durante décadas, como um sistema virtuoso de mercados abertos, ordem baseada em regras e ganhos recíprocos, mas que, na prática, serve para perpetuar assimetrias estruturais.
Como ocorre com toda hegemonia, chega o momento em que a potência dominante, diante do seu declínio relativo, abandona os princípios que proclamava e recorre aos instrumentos que antes condenava. O modelo norte-americano sustenta-se não apenas na produtividade e inovação internas, mas cada vez mais na extração de valor do resto do mundo — um imperialismo econômico do século XXI, mascarado pelo “interesse nacional”. Washington não produz riqueza apenas para seu povo; absorve-a globalmente, graças ao papel central do dólar, à atratividade de seu mercado e à incapacidade de outros países de contestar essa arquitetura desigual.
Essa realidade não se restringe ao comércio. Dados recentes da Debt Justice UK desmontam a narrativa de que a China seria o principal agente das crises de dívida no mundo em desenvolvimento. Entre 2020 e 2025, os pagamentos de dívida externa dos países de baixa renda a credores privados foram três vezes maiores do que os destinados a credores chineses. Bondholders, bancos e traders de commodities recebem uma fatia desproporcional dos recursos que, de outra forma, poderiam financiar infraestrutura, educação e resiliência climática. O peso crescente das instituições multilaterais e a relutância dos credores privados em assumir perdas apenas reforçam a lógica centro-periferia: a periferia paga, o centro acumula.
O problema é que, em vez de promover prosperidade mútua, o sistema se converteu num mecanismo de extração e controle. Economias emergentes e de renda média veem sua autonomia corroída por tarifas punitivas, sanções extraterritoriais e restrições arbitrárias. Não se busca a integração de parceiros soberanos, mas a submissão. Reduzir o consumo interno ou reequilibrar as contas públicas é politicamente impensável para Washington; mais fácil é transferir o fardo para fora, pressionando parceiros, punindo rivais e coagindo aliados — sempre sob o pretexto de “justiça” e “reciprocidade”.
Nesse contexto, rejeitar alternativas como o BRICS+ significa aceitar, de antemão, a condição de dependência. A crítica recorrente de que o BRICS+ seria apenas uma troca de dependência — agora com a China — ignora que o grupo não possui os mecanismos de condicionalidade rígida do FMI e que, num cenário multipolar, a competição entre fontes de financiamento aumenta a capacidade de barganha dos países. Diversificar parceiros não é gesto ideológico, mas estratégia de sobrevivência.
Também é falaciosa a ideia de que a heterogeneidade interna do BRICS+ compromete seu valor. A ASEAN, com sua arquitetura flexível, tornou-se força diplomática e comercial relevante. O BRICS+ não é um bloco militar nem uma união política rígida; é uma plataforma adaptável, apta a acomodar diferentes sistemas políticos e visões estratégicas, com o objetivo claro de incrementar o comércio entre seus membros.
A verdadeira questão estratégica para a América Latina — e para o Sul Global — não é escolher entre Washington e Beijing, mas aceitar a lógica estrutural da multipolaridade: equilibrar, diversificar e converter as mudanças sistêmicas em vantagens nacionais. Recusar-se a engajar múltiplas frentes não é prudência.
O futuro da economia global não pode repousar na perpetuação de privilégios, mas na criação de simetria. Isso exige clareza estratégica: acesso a mercados como o norte-americano deve ser visto como transação, não concessão. É necessário investir em capacidade industrial, diversificar relações, restaurar agendas de desenvolvimento e afirmar que soberania é incompatível com dependência.
Os Estados Unidos têm o direito de perseguir seus interesses — e os demais, o dever de perseguir os seus. Só assim será possível construir uma ordem econômica internacional mais justa, onde o crescimento seja compartilhado e as regras sejam negociadas, não impostas.