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São Paulo: um triste retrato

São Paulo: um triste retrato - Imagem: Reprodução / Pexels

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 21/01/2026, às 08h53

O Sul Global tem uma característica essencial que o distingue: a fome de desenvolvimento. Países emergentes vivem sob a pressão legítima de crescer, produzir, modernizar infraestrutura, criar oportunidades, elevar a qualidade de vida. É uma corrida histórica — e não há espaço para ingenuidade: desenvolvimento não é um gesto espontâneo, nem um evento fortuito. É uma construção.

E aqui entra a lição mais dura — e mais brilhante — que a China oferece ao mundo: não existe crescimento sustentável sem planejamento de longo prazo. Planejamento real, com metas, método, correções de rota, continuidade institucional e uma visão que sobreviva a governos. O século XXI pertence às sociedades que conseguem organizar o futuro antes que o futuro as destrua.

É precisamente por isso que São Paulo causa espanto. A maior cidade do hemisfério sul, locomotiva econômica do Brasil, centro financeiro e produtivo do país, exibe hoje sinais claros de uma cidade que não é governada: é tolerada. São Paulo dá a impressão de ter desistido de si mesma — como se tivesse aceitado que o normal é o trânsito eterno, o cinza permanente, o abandono progressivo e a deterioração cotidiana. O problema não é falta de riqueza. É falta de projeto.

O urbanismo paulistano é uma prova viva de como o improviso se transforma em tragédia. É incompreensível que avenidas estratégicas tenham permitido construções sem recuo, estrangulando espaço, bloqueando expansão viária e inviabilizando soluções futuras. É como se a cidade tivesse sido desenhada por administradores que imaginavam um mundo estático — uma concepção quase infantil de planejamento urbano. O resultado é um labirinto de cimento, um colapso permanente e um sistema viário condenado à asfixia.

E quando se discute mobilidade, o Brasil cai na sua doença política favorita: a ideologização do óbvio. De um lado, militantes do transporte coletivo como se o carro fosse pecado; de outro, defensores do automóvel como se transporte público fosse atraso. Mas governar metrópoles não é uma guerra moral. É logística civilizacional. O certo é planejar os dois. Pessoas precisam de transporte público eficiente e digno — e precisam de carros, veículos, serviços, logística, circulação. Reduzir isso a briga ideológica é apenas a forma mais sofisticada de não fazer nada.

Enquanto a população discute narrativas, São Paulo deteriora. A favelização é crescente. A sujeira é crônica. Jardins malcuidados, parques sem brilho, calçadas destruídas, estética urbana deprimente. Uma cidade sem cor, sem leveza, que não oferece dignidade aos seus cidadãos. São Paulo não parece ter sido pensada para ser agradável ao cidadão — parece ter sido desenhada para ser suportada. E uma cidade que se torna hostil fabrica cansaço, violência psicológica, ressentimento social e brutalidade cotidiana.

A consequência mais cruel desse abandono é o tempo. Não existe desperdício mais grave do que tempo. O paulistano perde a vida em parcelas diárias: horas e horas de congestionamentos inúteis, motores queimando combustível e poluindo o ar que respiramos, produtividade evaporando, saúde mental corroída. O trânsito de São Paulo não é destino: é incompetência institucional e falta de coragem política. Tempo perdido é vida roubada.

E, como se não bastasse, o Brasil adotou um novo evangelho: privatizar como se isso fosse sinônimo de eficiência. Privatização virou fetiche administrativo — mas privatizar sem fiscalizar é apenas terceirizar a decadência. Congonhas e Guarulhos ilustram bem: promessas de modernização, marketing, e depois deterioração, improvisos e experiências que lembram mais um país resignado do que uma nação que pretende liderar.

No fundo, o problema é simples: São Paulo não tem pensamento de Estado. Partidos não planejam para 30 anos — planejam para a próxima eleição. Gestores não constroem legado — constroem narrativas. E, como distração, fazem a população brigar por rótulos ideológicos enquanto o essencial — infraestrutura, mobilidade, espaços públicos, qualidade de vida — degrada em silêncio.

A tragédia paulistana é esta: São Paulo não está apenas mal administrada. Está abandonada. E uma cidade abandonada não cai de uma vez — ela vai se tornando inviável, até que um dia ninguém entende como deteriorou tanto.

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