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O Fim de uma Era

G20, realizada no Rio de Janeiro. - Imagem: Reprodução | Agência O Globo

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 27/11/2024, às 07h49

A última Cimeira do G20, realizada no Rio de Janeiro, não trouxe à tona discussões significativas sobre os desafios mais urgentes da atualidade. A questão da fome, levantada pelo governo Lula, reviveu um tema importante de seu primeiro mandato, no início do século XXI. Embora relevante, ela ilustrou uma desconexão com as pautas globais mais complexas e urgentes que, inevitavelmente, moldarão o futuro de maneira mais intensa e desafiadora.

Além disso, a Cimeira foi marcada pela ausência de Donald Trump, presidente-eleito dos Estados Unidos, cuja visão sobre o papel global de seu país difere significativamente da do atual ocupante da Casa Branca. Para Joe Biden, o evento simbolizou seu adeus ao palco internacional. Em razão de sua idade avançada, saúde debilitada e um governo com resultados abaixo do esperado, Biden tampouco terá tempo suficiente para consolidar uma liderança impactante, como outros presidentes americanos fizeram após deixar o cargo. Jimmy Carter, por exemplo, conseguiu elevar sua relevância em questões globais após o término de sua presidência. Kamala Harris, sua vice, tampouco conquistou o protagonismo necessário para se tornar sua sucessora viável e, dificilmente, reterá alguma importância vital no Partido Democrata.

A grande questão que permeou o G20 foi o impacto do iminente retorno de Trump à Casa Branca. Globalmente, observam-se movimentos de preparação para sua nova administração: desde o retorno à prática do golfe pelo líder da Coreia do Sul até preocupações no Japão com a possibilidade de novas exigências de compra de armamentos americanos. Na Europa, o dilema gira em torno do impacto da dependência econômica e militar dos EUA, que ameaça a soberania do continente.

Apesar de suas pretensões, Trump enfrentará uma realidade difícil: os Estados Unidos estão em um declínio relativo quase irreversível. Qualquer tentativa de revitalizar o país demandará um tempo que supera os limites de seu mandato. Além disso, o isolamento promovido por sua abordagem “América Primeiro” deve pressionar a Europa a repensar seu papel global. No entanto, o Velho Continente enfrenta sérias limitações. A falta de lideranças estratégicas e erros como a expansão desordenada da OTAN, além da animosidade com a Rússia, enfraqueceram sua capacidade de atuar como mediador entre os EUA e a China.

Essas dinâmicas refletem um panorama maior: o esgotamento da hegemonia ocidental na governança global. Durante décadas, as estruturas internacionais favoreceram um seleto grupo de países do Ocidente, perpetuando desequilíbrios, abusos e exclusões. Instituições como a ONU, o FMI e o Banco Mundial, embora essenciais no pós-guerra, frequentemente serviram como ferramentas de influência geopolítica ocidental.

Os efeitos dessa dinâmica foram devastadores. Intervenções militares unilaterais, como a do Iraque em 2003, sanções econômicas arbitrárias e o desrespeito às normas internacionais corroeram profundamente a legitimidade dessas instituições, perpetuando desigualdades globais.

O mundo atual, entretanto, já não é o mesmo do pós-guerra. Potências emergentes como China, Índia e Brasil desempenham papéis centrais na economia global, mas continuam sub-representadas nas decisões internacionais. Da mesma forma, países africanos e asiáticos enfrentam marginalização. Essa exclusão não é apenas injusta, mas ineficaz: desafios globais como pandemias, mudanças climáticas e segurança cibernética exigem abordagens inclusivas e colaborativas. Sem a inclusão de novos atores, as respostas globais permanecerão fragmentadas e insuficientes.

A inclusão e a cooperação não são apenas virtudes morais; são pré-requisitos para uma governança funcional. A incapacidade de abraçar esses princípios está no centro do colapso da ordem global vigente. Conflitos como Ucrânia e Gaza demonstram que o sistema atual é incapaz de promover a paz, a prosperidade e a justiça.

É importante destacar que Trump, embora polarizador, não é a causa principal desse colapso. Ele é, na verdade, um sintoma das fragilidades de um sistema que já vinha se deteriorando. Os BRICS, por outro lado, emergem como protagonistas de uma nova ordem internacional. No entanto, o Brasil, que ainda enxerga a China como cliente em vez de parceira estratégica, demonstra uma visão limitada sobre o impacto e a importância desse grupo no cenário global.

Se o Brasil deseja desempenhar um papel relevante na transição global, precisa alinhar-se mais profundamente com a nova realidade multipolar. Pequenos gestos simbólicos, como, por exemplo, a adoção de carros oficiais chineses pela presidência, poderiam sinalizar uma mudança de paradigma e uma maior compreensão dos novos tempos.

O mundo está mudando rapidamente. A reestruturação da governança global não é apenas inevitável, mas necessária. O reconhecimento das limitações do sistema atual é o primeiro passo para construir uma ordem mais justa, inclusiva e sustentável. Para isso, é fundamental aprender com os erros do passado, evitando que novas instituições repitam as falhas das antigas.

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