Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 13/11/2024, às 06h54
A reeleição de Donald Trump como o 47º presidente dos Estados Unidos trouxe uma onda avassaladora de mudanças. Trump conseguiu expandir a influência do Partido Republicano, transformando-o em uma organização voltada aos interesses dos trabalhadores e menos privilegiados, contestando a imagem que Joe Biden e Kamala Harris tentaram atribuir-lhe. Com vitórias decisivas em todos os estados-pêndulo desta eleição, Trump colocou os democratas em uma posição delicada. Para eles, resta torcer para que o governo Trump enfrente dificuldades, criando oportunidades para retomar terreno nas eleições de 2026.
Talvez tivesse sido mais interessante aos Democratas se Trump tivesse ganhado as eleições em 2020. Do ponto de vista interno, a reeleição de Trump pode moldar a agenda dos Estados Unidos por décadas, especialmente na Suprema Corte, onde ele terá a oportunidade de nomear novos juízes conservadores. Esse legado de longa duração representa uma derrota estratégica para os democratas, cuja aposta em Biden e Harris mostrou-se equivocada. A eleição de Trump sinaliza uma necessidade urgente de reavaliação das bandeiras da esquerda norte-americana.
Trump deve focar em assuntos domésticos. As promessas de “Tornar a América Grande Novamente” e “América em Primeiro Lugar” implicam políticas de reindustrialização, crescimento econômico e competitividade global, utilizando a influência dos Estados Unidos de forma pragmática para atender aos próprios interesses. Diferentemente de seus antecessores, Trump, com sua experiência empresarial, compreende o poder da presidência e não hesita em utilizá-lo.
Esse pragmatismo levará Trump a adotar uma política externa “à la carte,” engajando-se apenas em áreas de interesse direto. O foco pragmático será em acordos bilaterais e resultados concretos, deixando de lado a tradicional abordagem universalista. Essa postura mais realista reduz a probabilidade de intervenções militares extensas e favorece uma atuação pontual. Os Estados Unidos, em um momento de recuperação e em meio a desafios internos, evitarão envolvimentos prolongados em conflitos distantes. Esse estilo de liderança pode ser uma oportunidade para reorganizar o sistema internacional, adaptando-o às novas realidades do século XXI, promovendo uma governança global menos centralizada e mais diversificada.
Esse cenário cria espaço para uma configuração multipolar, onde o poder é distribuído entre várias potências, em vez de um domínio bipolar ou unipolar. A inclusão de novos atores no cenário global oferece oportunidades a países que, até então, atuavam aquém de seu potencial. Essa transformação permite maior autonomia e equidade entre as nações.
Um dos principais impulsionadores dessa mudança é a ascensão da China, que, ao longo das últimas décadas, consolidou-se como ator central no sistema global, por meio de investimentos e diplomacia econômica ativa. Embora Trump deseje conter o avanço chinês, a dívida doméstica e os enormes desafios sociais e econômicos dos Estados Unidos impõem limitações. Enfrentar o impacto dos investimentos chineses ao redor do mundo não será tarefa simples. Outro desafio – talvez o mais crucial de todos – é o processo da paulatina desdolarização da economia global, retirando do dólar o enorme poder que possui.
A vitória de Trump provavelmente trará mudanças substanciais para a governança global, incentivando a descentralização, a autonomia estatal e uma abordagem pragmática em economia e comércio. Trump afirmou repetidamente que cabe a cada país buscar seus próprios interesses, já que ele será o presidente dos Estados Unidos da América, e não dos “Estados Unidos da Terra.”
Para o Brasil, essa nova dinâmica oferece a chance de fortalecer relações comerciais de maneira independente e participar de iniciativas globais sem sacrificar prioridades nacionais. Apesar de uma ala da direita brasileira ser tradicionalmente alinhada – e muitas vezes subserviente – aos Estados Unidos, é importante reconhecer que são concorrentes do Brasil em várias áreas, como comércio, agricultura e política ambiental. A vitória de Trump deve inspirar uma reflexão sobre os reais interesses nacionais brasileiros.
Esse novo cenário apresenta desafios e pressões geopolíticas crescentes que exigem um corpo diplomático à altura da nova ordem global. Adotar uma postura passiva durante essa transição é condenar o Brasil à irrelevância. O país deveria explorar mais profundamente sua parceria com a China, especialmente no âmbito do BRICS, e considerar um acordo de livre comércio, além de flexibilizar o Mercosul para transformá-lo em uma área de livre comércio, não um mercado comum. É necessário expandir as parcerias além de Mercosul e União Europeia, buscando novos aliados e oportunidades.
Mais do que nunca, o Brasil precisa de uma visão estratégica e de clareza sobre seus interesses nacionais para posicionar-se de forma eficaz. Com uma abordagem inteligente e uma postura ativa, o país pode se destacar no cenário global e garantir um futuro próspero para as próximas gerações em meio a essa transição histórica.