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Dois presidentes, duas posturas

Enquanto Trump adota uma postura de confronto, Xi Jinping busca parcerias e cooperação regional. - Imagem: Reprodução | ChatGPT

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 16/04/2025, às 08h24

O mundo atravessa uma nova fase de sua história econômica e política. No centro desse processo estão dois presidentes, dois estilos de liderança e duas concepções diametralmente opostas sobre a ordem internacional. De um lado, Donald Trump, com sua retórica de confronto e domínio. De outro, Xi Jinping, com sua estratégia de paciência, cooperação e integração. Ambos personificam não apenas seus países, mas projetos distintos para o século XXI.

É irônico que os Estados Unidos — país que mais lutou por um sistema liberal internacional, cuja arquitetura foi definida em Bretton Woods — estejam hoje entre os principais destruidores das premissas que outrora defenderam com fervor. Durante décadas, Washington foi o maior promotor da liberalização do comércio, inclusive pressionando e apoiando a entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001. A expectativa era que, ao integrá-la ao sistema, Beijing se moldaria às normas estabelecidas pelo Ocidente. Entretanto, o que se seguiu foi o fortalecimento da China dentro dessas regras — algo que passou a incomodar profundamente a antiga potência dominante.

Sob Trump, os Estados Unidos abandonaram o papel de fiadores da ordem liberal e assumiram a função de seus coveiros. Tarifas, sanções unilaterais e a guerra comercial com a China tornaram-se armas políticas numa cruzada que revela mais temor do que estratégia. O discurso é claro: a hegemonia americana está acima de qualquer compromisso com o multilateralismo. Em um de seus eventos recentes, Trump declarou, com brutal sinceridade, que sua abordagem estava levando vários países a “beijarem-lhe o traseiro” em busca de acordos comerciais. Uma frase que, mais do que escandalosa, é reveladora de uma mentalidade suzerana.

Enquanto isso, Xi Jinping segue por um caminho oposto. Em vez de intimidar, busca consolidar alianças. Em sua viagem ao Sudeste Asiático — passando por Vietnã, Malásia e Camboja —, o presidente chinês tem reforçado a importância da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e da cooperação regional. Em contraste à retórica imperial de sua contraparte norte-americana, a diplomacia chinesa insiste em uma narrativa de parceria e desenvolvimento mútuo. Trata-se de uma escolha estratégica: enquanto Washington impõe barreiras, Beijing constrói pontes.

As consequências dessa dicotomia já se fazem sentir. O sistema comercial global, por décadas ancorado na previsibilidade e na estabilidade, encontra-se em estado de precariedade. A ofensiva americana, ao desarticular os fluxos comerciais e desestabilizar cadeias produtivas, compromete diretamente a agenda de desenvolvimento de diversos países, sobretudo no Sul Global. E, ironicamente, ao atacar a China, os Estados Unidos sabotam a própria engrenagem que sustentava sua primazia: o dólar.

A moeda americana — há tempos instrumento de poder e controle — continua a perder prestígio. Um número crescente de países busca alternativas. Se antes a pressão era para desacoplar a economia ocidental da China, hoje observa-se uma tentativa sutil, mas crescente, do próprio Ocidente de reduzir a dependência do dólar. Isso deveria ser motivo de preocupação em Washington, pois enfraquecer sua moeda é, em essência, enfraquecer sua capacidade de projetar poder.

O cenário é agravado por fatores internos. Os Estados Unidos em 2024 gastaram mais com o pagamento de juros da dívida do que com seu orçamento militar — um dado simbólico da erosão de sua pujança econômica. Ao mesmo tempo, a postura de liderança global se esvazia. Nem Trump nem Biden demonstraram real interesse em reconstruir as pontes com o mundo. Os Estados Unidos, habituados ao papel de suzerano, veem agora seus antigos vassalos reconsiderando suas alianças. O mundo está mudando — e mudando sem pedir permissão.

Essa transição é perigosa. Há quem acredite que somente uma guerra selará o novo equilíbrio de forças. Mas esse não parece ser o desejo da China, e tampouco parece factível para os Estados Unidos. A guerra na Ucrânia demonstrou os limites do poder e do orçamento ocidental e a exaustão do modelo de dominação pela força. O novo século pede mais nuance, mais diplomacia, mais equilíbrio — e menos arrogância.

Neste tabuleiro, dois líderes indicam caminhos opostos. Um vê o mundo como cenário de submissão; o outro, como espaço de convergência. E enquanto um empurra a ordem global para o colapso, o outro a redesenha silenciosamente.

O multilateralismo deve prevalecer.

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