COLUNA

Brasil, 2026

O ciclo eleitoral brasileiro enfrenta um desencanto profundo, refletido na saída de jovens em busca de esperança

Brasil, 2026 - Imagem: Criada por IA

Marcus Vinícius de Freitas Publicado em 24/12/2025, às 12h42

Marcus Vinicius De Freitas

Professor Visitante, China Foreign Affairs University

Senior Fellow, Policy Center for the New South

Ao aproximar-se o final de 2026, o Brasil entra em mais um ciclo eleitoral formalmente democrático, mas psicologicamente esvaziado. A repetição do ritual já não produz expectativa, apenas ansiedade. Não se trata mais de esperança frustrada, mas de algo mais grave: um desencanto coletivo com a própria ideia de futuro nacional.

Esse desencanto não é retórico. Ele se expressa em dados, comportamentos e decisões individuais. Cresce, de forma silenciosa e persistente, o número de jovens que desejam deixar o país — inclusive para destinos objetivamente mais frágeis ou em deterioração econômica. Esse paradoxo revela algo profundo: não é a realidade material que empurra a saída, mas a ausência de horizonte. As pessoas não fogem apenas de crises; fogem de países que não sabem para onde vão.

E o Brasil, hoje, não sabe.

A cada quatro anos, o país reinicia a si mesmo. Mudam-se prioridades, diagnósticos, políticas públicas, alianças internacionais, modelos econômicos, narrativas históricas e até critérios de verdade. Problemas estruturais — educação básica, produtividade, segurança pública, infraestrutura, desigualdade social — são continuamente reconhecidos, mas raramente tratados como agendas permanentes de Estado. Entram e saem do discurso conforme o humor eleitoral. O resultado é um país condenado ao presente perpétuo.

Esse quadro é agravado por uma distorção institucional cada vez mais evidente. Um Poder Executivo instável, errático, incapaz de produzir continuidade. Um Poder Legislativo fragmentado, reativo e muitas vezes refém do curto prazo. E, no vácuo, um Poder Judiciário hipertrofiado, que arbitra conflitos que deveriam ser resolvidos politicamente, denotado uma enorme falência do sistema.

Insistir que esse cenário será corrigido apenas “elegendo melhor” tornou-se uma forma de autoengano cívico. O Brasil já elegeu projetos opostos, líderes carismáticos, gestores técnicos, outsiders e insiders. O padrão de frustração se repete. Quando o erro se repete, o problema não é moral. É estrutural. A culpa não é do eleitor, mas sim dos partidos políticos que deveriam ser os guardiães da democracia.

Também é nesse contexto — e apenas nele — que a rediscussão da forma de governo deixa de ser excentricidade histórica e passa a ser necessidade institucional. Não como nostalgia imperial, mas como resposta racional a um país incapaz de sustentar continuidade sob um presidencialismo personalista.

A monarquia constitucional parlamentar oferece ao Brasil algo que nunca tivemos de forma consistente: continuidade institucional acima das disputas eleitorais. Um eixo permanente que obriga qualquer governo, de qualquer orientação, a lidar com os mesmos problemas recorrentes do país. Não permite que cada gabinete trate o Estado como projeto provisório. Não autoriza o governante a confundir sua vitória eleitoral com um cheque em branco civilizacional.

Ao separar definitivamente o chefe de Estado do chefe de governo, a monarquia retira do jogo político o prêmio mais destrutivo do sistema brasileiro: a apropriação simbólica da nação por um vencedor circunstancial. O governo passa a ser gestão — e apenas gestão. Pode cair, ser substituído, corrigido, sem que o país entre em convulsão. O Estado continua. A agenda permanece.

Mais do que isso: um regime de continuidade cria constrangimentos virtuosos. Ele força governos sucessivos a manter políticas de longo prazo, porque o custo institucional de abandoná-las torna-se maior do que o ganho eleitoral imediato. Obriga ministros a pensar em legado, não em ruptura. Reduz a tentação de governar apenas para o ciclo seguinte.

Num país marcado por personalismo, messianismo político e guerras morais cíclicas, isso não é detalhe simbólico. É engenharia institucional contra o improviso. A monarquia não promete virtude. Não promete bons governantes. Não promete milagres. Mas oferece algo que o Brasil nunca conseguiu produzir sozinho: previsibilidade, memória e horizonte. Elementos indispensáveis para que uma sociedade volte a acreditar em si mesma.

Talvez o debate mais honesto que o Brasil possa fazer em 2026 não seja sobre quem deve governar, mas sobre como impedir que cada governo reinicie o país do zero. Quando uma nação começa a perder seus jovens não por pobreza, mas por desalento, o problema já ultrapassou a política cotidiana. Tornou-se institucional.

Rediscutir a monarquia, hoje, não é um gesto de saudosismo. É um ato de lucidez diante de um país que precisa, antes de tudo, parar de se autossabotar. E ter um horizonte de longo prazo.

Um Feliz Natal a todos e um Próspero Ano Novo!

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