COLUNA

A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos

A Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 10/12/2025, às 11h00

Se ainda havia dúvidas sobre o declínio norte-americano — tema já explorado nesta coluna — a nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos dissipa qualquer hesitação. O documento, apresentado como um grande projeto de restauração nacional, revela mais sobre as fragilidades internas de Washington do que sobre sua capacidade de reinventar-se. A narrativa oficial está ancorada em quatro vetores fundamentais: reindustrialização, soberania econômica, primazia tecnológica e liderança global. À primeira vista, esses pilares sugerem um país preparado para disputar o futuro. Mas, à medida que se avança na leitura, torna-se evidente que o projeto não é de futuro — é de passado.

A estratégia tenta recompor um mundo em que os Estados Unidos ditavam ritmos, escreviam regras e impunham narrativas. A reindustrialização proposta depende de uma reconfiguração drástica das cadeias globais de valor, algo que exige custos sociais e políticos que a sociedade norte-americana não demonstra disposição de enfrentar. A soberania econômica prometida baseia-se na ilusão de que tarifas, sanções e protecionismo seletivo podem reconstruir uma base produtiva enfraquecida há décadas. A primazia tecnológica é tratada como direito natural, não como conquista competitiva, ignorando o avanço acelerado da Ásia, do Oriente Médio e de outros polos emergentes.

Mas o erro estrutural do documento está na tentativa de preservar a liderança global a partir de uma realidade que já não existe. Washington fala como se o sistema internacional permanecesse unipolar, como se seus aliados ainda orbitassem em torno de sua vontade estratégica e como se o restante do mundo estivesse disposto a assumir custos para preservar a hegemonia americana. O mundo mudou — e a estratégia americana insiste em não o perceber. O século XXI é multipolar, distribuído, tecnológico e civilizacional. Nenhuma potência, por mais influente, pode moldá-lo sozinha.

Há ainda falhas evidentes na interpretação do ambiente global. O documento subestima a ascensão do Sul Global, trata a competição com a China como duelo exclusivo e ignora a autonomia crescente de países médios que já não aceitam ser meros instrumentos de agendas alheias. A tentativa de reconstruir a influência americana no Hemisfério Ocidental é outro equívoco: parte da crença de que basta reafirmar a Doutrina Monroe para que a região se alinhe automaticamente. Não compreende que a América Latina hoje tem opções — e que a existência de alternativas multipolares redefine completamente o jogo.

O Brasil, nesse contexto, encontra-se numa situação desafiadora. O País é chamado, ainda que indiretamente, a escolher entre dois projetos de mundo: o americano – que trata o Brasil como uma potência menor no hemisfério – centrado na restauração de uma hegemonia declinante, e o asiático, que propõe redes, interdependência e diversificação. A América Latina, antes tratada como quintal geopolítico, torna-se agora terreno de disputa tecnológica, energética e diplomática. Cada decisão — da infraestrutura à Inteligência Artificial, da política industrial aos acordos comerciais — posiciona o continente num tabuleiro que já não admite neutralidade ingênua.

Espera-se, portanto, que a liderança política brasileira compreenda a magnitude deste momento. O declínio dos Estados Unidos, que muitos acreditaram que Donald Trump poderia reverter, não apenas não se dissolve: aprofundou-se. A nova Estratégia de Segurança evidencia um país preso a um ideal de potência que já não encontra correspondência nas dinâmicas internacionais. Cabe ao Brasil — e à América Latina — evitar o erro histórico de apostar todas as fichas num projeto de hegemonia que se esvai.

O futuro pertence às nações que souberem se mover com lucidez entre polos de poder, explorando oportunidades e recusando tutelas. O mundo está mudando. Os Estados Unidos sabem disso, mas não sabem o que fazer com essa informação. O Brasil, se agir com inteligência, pode sair fortalecido desse rearranjo. Se, ao contrário, ignorar o movimento da história, corre o risco de ser arrastado por ela.

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