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A imprudência de Joe Biden

A imprudência de Joe Biden - Imagem: Reprodução | X (Twitter) - @EFEnoticias

Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 20/11/2024, às 07h56

A decisão do presidente norte-americano, nos últimos momentos de sua administração, de autorizar a Ucrânia a realizar ataques de longo alcance contra a Rússia, evidencia uma preocupante despreocupação com o risco de escalada em uma guerra que já dura quase três anos. O presidente Vladimir Putin já havia declarado que qualquer ação desse tipo seria interpretada como um ato de guerra da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra a Rússia, o que, na prática, colocaria a aliança militar ocidental em confronto direto com o gigante euroasiático.

Embora o desrespeito de Putin ao Direito Internacional ao invadir a Ucrânia seja evidente, as iniciativas ocidentais para conter Moscou têm se mostrado amplamente ineficazes. As sanções econômicas não produziram os efeitos esperados, o povo russo não derrubou Putin e as narrativas sobre o enfraquecimento da Rússia revelaram-se inócuas. Apesar da resistência admirável e necessária do povo ucraniano, o apoio da OTAN não conseguiu reverter o cenário. A Rússia continua a demonstrar sua força como uma potência militar difícil de ser derrotada.

É interessante notar que, diferentemente dos Estados Unidos — cujos sucessos militares, desde a Segunda Guerra Mundial, são limitados, exceto em conflitos contra Estados mais frágeis como o Iraque —, a Rússia possui, especialmente na Ásia, uma percepção histórica de invencibilidade acumulada ao longo dos séculos.

Ao longo do conflito, a tão esperada reação ucraniana não se concretizou de maneira definitiva. Moscou mantém a maior parte dos territórios conquistados, a economia russa não colapsou, e a posição de Volodymyr Zelenskyy vem se deteriorando gradativamente, especialmente com a perda de apoio no Ocidente. Dentro da própria OTAN, surgem divergências sobre a continuidade da guerra. A percepção crescente é de que Kyiv dificilmente terá condições de reverter o cenário e que insistir em ações mais ousadas pode levar a uma resposta ainda mais contundente por parte da Rússia.

Esse risco de escalada seria desastroso, especialmente para a Europa, que já sofre com os impactos econômicos do conflito, como os altos custos energéticos. Quando países nuclearmente armados entram em guerra, o conflito se torna virtualmente impossível de ser revertido sem consequências devastadoras. A lógica da “paz pelo terror” — sustentada pela dissuasão nuclear — continua sendo a principal garantia de estabilidade global.

Nesse contexto, a decisão de Biden de fomentar uma escalada no conflito demonstra uma irresponsabilidade estratégica, além de criar um problema gigantesco para seu provável sucessor, Donald Trump.

A eventual atuação de Trump pode ser crucial para restaurar, ao menos parcialmente, a credibilidade dos Estados Unidos e da OTAN. Organizações internacionais, como a própria OTAN, frequentemente buscam justificar sua relevância mesmo quando enfrentam crises existenciais. Antes do conflito, já estava evidente que a OTAN havia perdido parte de sua importância, enquanto os europeus relutavam em ampliar seus gastos militares, considerando-os, em última análise, como um subsídio indireto à indústria armamentista norte-americana.

Um cessar-fogo mediado por Trump poderia levar a um desfecho pragmático. Embora representasse uma derrota simbólica para Zelenskyy, garantiria que a OTAN mantenha alguma relevância, mesmo não sendo a instituição favorita de Trump.

Para Putin, o objetivo geoestratégico sempre foi claro: a Ucrânia, dada sua proximidade geográfica e vínculos históricos, jamais poderia integrar uma aliança militar hostil à Rússia. Há três razões principais que justificam por que a Ucrânia nunca poderia fazer parte da OTAN: (i) Território Ocupado: Desde 2014, parte do território ucraniano está sob controle russo. A admissão de um país já em estado de beligerância com uma potência nuclear colocaria automaticamente os 32 membros da OTAN em alerta máximo, devido ao princípio da defesa coletiva garantido pelo artigo 5º do Tratado da OTAN. Essa situação seria insustentável para os europeus, tanto estrategicamente quanto economicamente; (ii) Interesses Eleitorais Ocidentais: Líderes como Joe Biden, Boris Johnson, Olaf Scholz e Emmanuel Macron exploraram o conflito como uma oportunidade política. Para Biden, o objetivo era enfraquecer simultaneamente a Rússia e a China. Zelenskyy, por sua vez, também se beneficiou temporariamente da guerra, já que enfrentava problemas domésticos e uma queda de popularidade antes da invasão. No entanto, a guerra acabou consolidando Putin como o homem forte da Rússia, algo que nem Biden nem Zelenskyy esperavam; e (iii) o Lobby da Indústria de Defesa: A guerra na Ucrânia serviu como um campo de testes para a indústria armamentista global, que há tempos busca expandir sua produção e testar novas tecnologias. As massivas remessas de armas à Ucrânia reforçaram a narrativa de Putin de que uma Ucrânia aliada à OTAN seria ainda mais armada para combater a Rússia.

Este conflito empobreceu coletivamente a Europa, com aumentos substanciais nos custos de energia e uma clara demonstração de que os Estados Unidos já não possuem a mesma capacidade de impor sua agenda global. A guerra na Ucrânia marca, assim, um divisor de águas, simbolizando o declínio da hegemonia norte-americana.

A imprudência de Biden, ao fomentar essa escalada, apenas reforçou o enfraquecimento da ordem unipolar e sublinhou a necessidade de uma reavaliação da abordagem ocidental frente às mudanças geopolíticas globais. O mundo respirará aliviado com a aposentadoria de Biden e a reeleição de Trump. Quem diria?

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