Marcus Vinícius De Freitas Publicado em 12/11/2025, às 09h01
Em meio às tensões que dominam a agenda internacional — guerras, disputas tecnológicas e crises financeiras — uma transformação silenciosa, porém decisiva, ocorre sob nossos pés: a reconfiguração geopolítica em torno do solo e dos fertilizantes. Poucos percebem que o verdadeiro poder do século XXI talvez não esteja nos microchips ou nas armas hipersônicas, mas na capacidade de nutrir a terra e garantir a soberania alimentar de bilhões de pessoas.
A pandemia e a guerra na Ucrânia expuseram uma fragilidade estrutural das cadeias agrícolas globais. A Rússia e Belarus, responsáveis por quase 40% do potássio mundial, tornaram-se peças centrais de um tabuleiro que antes parecia secundário. A interrupção no fornecimento desses insumos revelou o quanto o Ocidente, obcecado com a tecnologia digital, negligenciou a dimensão mais elementar da segurança: a segurança do alimento.
Hoje, a geopolítica do solo emerge como uma nova fronteira do poder global. Países ricos em minerais agrícolas — como o Marrocos, com suas vastas reservas de fosfato, ou o Brasil, com potencial de autossuficiência ainda inexplorado — passam a ocupar um papel estratégico. O continente africano, por sua vez, torna-se terreno de cooperação e disputa: a China, a Índia e as nações do Golfo investem maciçamente em fábricas de fertilizantes, infraestrutura logística e tecnologia agrícola, enquanto a Europa tenta reconstruir laços que durante séculos foram moldados pelo extrativismo colonial.
O que se desenha é um novo sistema agro-energético global, em que a produção de alimentos, energia e fertilizantes se entrelaça num circuito de poder. A transição verde, tão celebrada nos fóruns internacionais, depende paradoxalmente de minerais escassos, cuja extração consome energia e requer estabilidade política em regiões frágeis. Essa contradição — entre o ideal ecológico e a realidade material — expressa o dilema de uma humanidade que quer um futuro sustentável sem reformar suas estruturas de dependência.
Enquanto isso, a China adota uma estratégia paciente e relacional, firmando acordos de longo prazo com países africanos e latino-americanos para garantir o acesso a insumos agrícolas e minerais. Ao contrário do modelo ocidental, centrado na imposição de sanções e controle de preços, Pequim aposta na reciprocidade e na infraestrutura: constrói portos, ferrovias e fábricas que consolidam laços econômicos e políticos duradouros. A fertilidade da terra, para a China, não é apenas um dado econômico, mas uma extensão de sua filosofia de harmonia entre o homem e a natureza — uma relação de equilíbrio, em que o solo retribui a quem o cultiva com respeito.
O Brasil, contudo, ainda hesita entre o papel de potência agrícola e o de importador vulnerável. Falta ao país compreender que a riqueza do seu solo deve permanecer no Brasil. O grande beneficiário do comércio exterior brasileiro no setor agrícola continua sendo as grandes tradings internacionais — quase todas estrangeiras — que controlam os fluxos de exportação, logística e precificação. O produtor nacional, embora responsável por uma das maiores produções agrícolas do planeta, captura apenas uma fração do valor total gerado por sua colheita. O restante se dissipa nos elos intermediários — transporte, estocagem, câmbio e especulação — que alimentam lucros fora das fronteiras.
Se o Brasil verticalizasse sua produção agrícola, com empresas nacionais capazes de processar, distribuir e exportar diretamente, o país poderia reter uma parcela substancialmente maior desse valor. Essa integração produtiva significaria transformar commodities em produtos de maior valor agregado, fortalecendo as cadeias industriais internas, estimulando inovação tecnológica e reduzindo a dependência de conglomerados estrangeiros.
Nesse contexto, seria legítimo o Estado dar o pontapé inicial, criando uma empresa nacional de comércio e fertilizantes que estruturasse essa verticalização e corrigisse distorções históricas. Tal empresa não precisaria — nem deveria — ser permanente: seu papel seria estratégico, de impulso e coordenação, até que o setor privado brasileiro consolidasse capacidade de competir globalmente em pé de igualdade. A experiência demonstra, contudo, que o desafio maior não é técnico, mas político — pois as estatais brasileiras, quando capturadas por interesses partidários, frequentemente perdem o foco estratégico e o sentido de missão nacional que as justifica. Talvez uma joint venture inicial sino-brasileiro pudesse reduzir essa tentação.
Persistimos numa mentalidade distorcida: a de que o Brasil “alimenta o mundo”. É uma ideia nobre, mas incompleta. O Brasil pode alimentar o mundo — e, de fato, o faz —, mas antes de tudo deve garantir que nenhum brasileiro passe fome. Um país que nutre os outros, mas não a si mesmo, perde o sentido de sua própria abundância.
É tempo de o Brasil compreender que a prosperidade duradoura nasce da paciência estratégica, da autonomia produtiva e do respeito pela terra. O solo brasileiro é mais do que um recurso — é um destino civilizacional. Cabe ao país escolher se continuará exportando sua fertilidade como quem vende o próprio futuro, ou se enfim cultivará, com sabedoria e visão, o poder silencioso de suas próprias raízes.