Marcelo Emerson Publicado em 24/04/2025, às 08h07
Kerry King é um músico famoso que atingiu a notoriedade compondo e tocando guitarra numa famosa banda de música pesada. Natural dos EUA, Kerry esteve no Brasil para uma série de ações para promover sua participação num festival que ocorrerá em maio em São Paulo.
Dentre várias entrevistas que o guitarrista concedeu no Brasil, em uma delas ele fez uma afirmação que vale ser destacada para servir de tema para esta coluna, já que temos abordado com certa frequência a relação da música com as críticas sociais, políticas e religiosas.
A afirmação do músico foi dada para uma revista especializada em música pesada. Em certo momento, ele afirma que a maioria das guerras é sobre religião ou ganância. Não temos o áudio ou a transcrição original em inglês do comentário citado, mas vamos pressupor que o tradutor foi rigoroso ao passar as palavras do guitarrista para a língua portuguesa.
O entrevistador traduziu as palavras de Kerry nos seguintes termos: “Ao longo da história, porém, as guerras invariavelmente foram iniciadas por causa das religiões, e é inacreditável que nos dias de hoje isso ainda aconteça”.
É interessante como músicos são considerados intelectuais públicos e suas ideias são jogadas a esmo no debate público sem a necessidade de um apuro maior daquilo que eles afirmam.
As causas de toda e qualquer guerra são complexas e repletas de nuances e diferentes dinâmicas das partes envolvidas. Mas Kerry escreve letras debochando das religiões porque ele acredita que apenas elas são as causas das guerras.
Curiosamente, a música que tem o título em questão se refere à crucificação, que é um fato central na história do cristianismo. Kerry diz atacar as religiões, mas põe um título que se refere apenas a uma das grandes linhas religiosas existentes no mundo.
Kerry é famoso e tem uma legião de fãs que dizem amém para tudo o que ele fala, mesmo que Kerry deboche do cristianismo sem que tenha conhecimento básico sobre os pilares doutrinários daquilo que ele ataca. Será que Kerry já estudou os Evangelhos, as cartas pastorais de Paulo ou algum escrito de Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Martinho Lutero ou João Calvino? Pelo teor de sua resposta na entrevista mencionada, isso parece pouco provável.
Também não há muitos indícios de que Kerry tenha se interessado por história ou geopolítica, pois ele saberia que as guerras ocorrem pelas mais diversas razões ao longo da história. Sejam guerras tribais ou batalhas entre estados nacionais, o fator religioso é apenas um dos elementos, e nem sempre o principal, das questões em disputa.
Pesquisa realizada pelo Institut for Economics and Peace publicado em 2015 concluiu que 30 dos 35 conflitos armados registrados no planeta em 2013 não tinham a religião como causa principal (86% tinham outras causas que não uma questão religiosa). As causas variavam de oposição ao governante, tentativa de instaurar outro sistema econômico, polarizações ideológicas ou disputas entre diferentes grupos políticos e sociais pura e simplesmente.
Não se nega que houve corrupções, abusos e até pretextos usados em nome de alguma religião nas tantas guerras que o mundo já enfrentou, mas é muito simplório arrematar com uma frase tão categórica contra as religiões como fez o Kerry.
Mas Kerry é famoso e a fama dá às suas opiniões um peso que dispensa o estudo cuidadoso daquilo que é objeto de suas opiniões. Por que estudar sobre aquilo que se quer opinar se a fama já legitima o Kerry como um intelectual público e a base de fãs vai ovacioná-lo por qualquer coisa que ele diga. Se a crítica vier em sintonia com a rebeldia juvenil, Kerry conseguirá mais shows em sua agenda, pois sempre há adolescentes para ralhar com os pais ou autoridades em geral? Kerry parece ser um cara legal, mas sabe muito pouco sobre cristianismo. Kerry tocando guitarra é um poeta.