COLUNA

Andreas Kisser está certo!

Análise do impacto da inteligência artificial na composição musical e o futuro dos artistas. - Imagem: Reprodução | MetaAI

Marcelo Emerson Publicado em 13/02/2025, às 09h00

Inteligência artificial e “coachs” para músicos. Chegaram as novidades no mercado da música. A batalha comercial e intelectual entre EUA e China nos deu ChatGPT, DeepSeek e similares. A necessidade dos músicos de ganharem seu suado dinheirinho deu a oportunidade para o surgimento de “coaches” da indústria musical. Será a substituição do músico-artista pelo músico-mercadoria ou músico-marca?

Recentemente uma entrevista do Andreas Kisser para um certo podcast deu o que falar e pode nos ajudar a refletir sobre a questão posta no início desta coluna. A certa altura da conversa, o apresentador perguntou sobre as demandas dos fãs perante o artista, e o guitarrista do Sepultura teve um acesso de franqueza ao mandar um sonoro: “Com todo respeito, o fã que se ***. Coloquei os asteriscos para ocultar o palavrão. O caro leitor pode imaginar que a frase continha uma variação que rima com “o fã que se exploda”.

Seguindo a cartilha dos podcasts, as redes sociais logo foram inundadas com o corte sensacionalista. Pouco adiantou a explicação do entrevistado, que, ato contínuo, passou a esmiuçar as razões pelas quais entende que o artista não pode dar ouvidos para as demandas dos fãs. Sob pena de se colocar numa espécie de “prisão”, repetindo-se eternamente nos próprios clichês. Ademais, o guitarrista ainda esclareceu que sua base de fãs tem um perfil bastante variado, o que praticamente impossibilitaria atingir um denominador comum que pudesse ser atendido no momento de criação artística.

O entrevistador fez um contraponto ao que Andreas disse, e insistiu (inclusive nos comentários públicos que se seguiram ao vídeo), que o artista deve se submeter aos clamores dos fãs. Em live no Instagram (que não está publicada), o entrevistador disse que o artista é o produto ou serviço que o público consome. O rapaz insistiu que uma banda de heavy metal consagrada como o Sepultura deveria fazer pesquisa de mercado para conhecer melhor seu público e dar o que for preciso para agradá-lo.

Quem conhece a história do Sepultura sabe que se os seus integrantes tivessem se baseado em pesquisa de mercado, a banda sequer existiria. A banda foi formada em 1984 e se caracterizou pela sonoridade rápida, agressiva e brutal, com letras em inglês que primeiro abordavam bobagens típicas de rebeldia juvenil, mas logo passou a tratar de temas políticos e sociais. Isso numa época em que os maiores sucessos vinham do pop rock cantado em português de Lulu Santos e Legião Urbana.

O Sepultura chegou ao seu auge nos anos 90, fazendo parte da elite de bandas do cenário mundial da música pesada rasgando todas as cartilhas e mandando às favas pesquisas de mercado. Andreas Kisser e seus parceiros desafiavam até mesmo sua base de fãs, fazendo parcerias inusitadas com músicos da MPB como Calinhos Brown e Zé Ramalho. Mentorias, “coaches” e pesquisas não teriam recomendado tais ousadias.

O entrevistador não percebeu, mas está propondo a extinção do artista. Caso prevaleça a sua tese, a de que o artista é a mercadoria/serviço, logo a inteligência artificial produzirá músicas em série, sem qualquer necessidade de um humano no processo de composição. “Playbacks” podem garantir a performance ao vivo de qualquer ator que faça performances puramente gestuais, sem necessidade de qualquer habilidade musical, como tocar instrumentos ou cantar.

Por isso, reafirmo meu apoio ao Andreas. Eu não usaria os palavrões, mas o guitarrista está certo. Vamos reafirmar o óbvio: a criação da arte é exclusividade do artista. Marqueteiros, assessores e empresários devem sair da sala no momento da criação.

Pronta a arte, surge a necessidade de "empacotá-la" para a venda. São criados os produtos e serviços que se baseiam nela. Aí sim entram em cena os "pesquisadores de mercado" e os "mercadores em geral", que devem saber vender os produtos e serviços que decorrem da criação artística, mas quem entende da arte é o artista (olha aí o óbvio de novo).

Sem romantismo. O artista precisa de dinheiro para se sustentar, mas ao se colocar como mercadoria, o processo de compor, tocar e gravar música equivale a vender margarina, sabão em pó ou qualquer mercadoria que está na prateleira de um supermercado. Neste caso, inteligência artificial e “coaches” tomarão o lugar dos artistas no centro do palco.

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