Mara Machado Publicado em 31/10/2025, às 09h18
Os números mostram com clareza: os fatores de risco que alimentam a hipertensão arterial estão se espalhando rapidamente pela população brasileira — e em muitos casos, crescendo. O Brasil é hoje o sexto país com maior incidência de diabetes no mundo, com alta de 5,7% em relação a 2021, segundo a Federação Internacional de Diabetes. O colesterol alto já afeta 4 em cada 20 adultos e, ainda mais preocupante, 27,4% das crianças e adolescentes apresentam índices elevados, de acordo com recente estudo da UFMG.
A obesidade, condição que multiplica o risco cardiovascular, aumentou 72% em apenas 13 anos, passando de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2019, segundo o Vigitel. E o estresse, que agrava a pressão arterial e compromete a saúde do coração, coloca o país como o 4º mais estressado do mundo, conforme relatório global do Instituto Ipsos (2024).
Esses fatores de risco compõem o pano de fundo de uma epidemia que se consolida: a hipertensão arterial. O mundo já soma mais de 1,28 bilhão de adultos hipertensos, número que dobrou nas últimas três décadas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Imperial College London. Quase metade dessas pessoas sequer sabe que tem a condição.
No Brasil, os dados seguem a mesma direção, e a tendência é que o problema cresça nos próximos anos — alimentado por hábitos de vida pouco saudáveis e desigualdade no acesso a diagnósticos e tratamentos.
A gravidade é evidente. A pressão alta é um dos principais fatores de risco para o Acidente Vascular Cerebral (AVC), uma das principais causas de morte e incapacidade no país. Entre 2019 e 2023, o DATASUS registrou 174.626 óbitos por AVC. Estima-se que mais de 400 mil brasileiros sofram um episódio a cada ano, segundo o Ministério da Saúde. Quando não mata, o AVC frequentemente deixa sequelas incapacitantes, com impacto profundo na vida da pessoa e de seus familiares — além de custos significativos para o sistema de saúde.
O problema é estrutural e multidimensional. O AVC é majoritariamente isquêmico (85% dos casos), e a letalidade nos primeiros 30 dias pode variar de 10% a 40%, dependendo do acesso ao atendimento de emergência e à infraestrutura hospitalar, conforme estudo publicado pela Revista da Escola de Enfermagem da USP. Além disso, existem desigualdades regionais profundas e fragilidades que comprometem o cuidado.
Diante desse cenário, não basta tratar a doença depois que ela aparece. É urgente investir em políticas públicas consistentes, robustas e integradas, que enfrentem as causas e não apenas as consequências. Combater a hipertensão exige combater os seus determinantes: alimentação inadequada, sedentarismo, obesidade, estresse e barreiras sociais e educacionais que dificultam escolhas saudáveis.
É aqui que entra o conceito de saúde sustentável — um olhar ampliado, que entende a saúde como resultado de políticas sociais, ambientais e econômicas equilibradas. Promover estilos de vida saudáveis, planejar cidades que favoreçam o movimento, educar para a prevenção e reduzir desigualdades é investir não apenas em menos AVCs, mas em mais qualidade de vida e eficiência do sistema de saúde.
Diante disso, o alerta é claro: a hipertensão e seus fatores de risco precisam estar no centro das políticas de saúde pública. Só assim poderemos transformar uma crise silenciosa em uma oportunidade de reconstruir o cuidado com base em valor, prevenção e sustentabilidade.