Mara Machado Publicado em 27/03/2025, às 09h32
Há poucos dias, mais um embate entre profissionais de saúde ganhou destaque na imprensa. O Conselho Federal de Farmácia (CFF) publicou uma resolução que autoriza farmacêuticos a prescreverem medicamentos, incluindo aqueles que exigem receita, gerando imediata resposta da classe médica contrária à decisão. Enquanto a queda de braço segue entre representantes das duas atividades, a segurança do paciente fica em segundo plano.
Estamos falando de vidas perdidas por cuidado inadequado à saúde, além de incontáveis casos de atendimentos distantes do ideal, com risco de sequelas permanentes ao paciente. Antes de focar em disputas por interesse profissional, as lideranças da saúde deveriam estar olhando para desafios que já estão muito bem mapeados e precisam de soluções urgentes.
A comunicação adequada é uma delas. Falha comum em diversos ambientes de atendimento ao paciente e prejudicada pelo excesso de demanda, a comunicação carece de processos mais seguros e eficientes. Também falta interação adequada entre equipes multidisciplinares, que deveriam discutir o melhor caminho para cada caso. A situação se agrava por eventuais faltas de recursos, tanto de equipamentos, medicamentos e insumos, quanto de equipes. Isso aumenta a pressão no ambiente de saúde, gerando estresse e competições.
Não bastasse, ainda existem dilemas éticos constantes. A escolha do melhor tratamento ou justamente a ausência dele, por questões de acesso, associado aos desejos dos pacientes e familiares, pode criar situações complexas, com dilemas e escolhas difíceis aos profissionais de saúde.
Todos esses desafios contribuem para que os sistemas de saúde, mundo afora, estejam muito aquém do esperado no que diz respeito à segurança do paciente. Alguns dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) evidenciam as consequências.
Cerca de 10% dos pacientes sofrem danos em cuidados de saúde e mais de três milhões de mortes ocorrem anualmente devido a cuidados inseguros. Em países de baixa e média renda, até quatro em cada 100 pessoas morrem devido a cuidados inseguros.
Além dos efeitos devastadores a familiares e amigos, e aos próprios pacientes quando sobrevivem, existe o impacto econômico. Estima-se que os danos ao paciente possam reduzir o crescimento econômico global em 0,7% ao ano. O custo indireto pode chegar a trilhões de dólares americanos. Contudo, mais da metade dos casos são considerados evitáveis.
Diante disso, precisamos assumir outra postura. Em vez de embates entre profissionais de saúde, devemos ampliar o diálogo com o objetivo comum de promover saúde e bem-estar ao paciente, atentos às quebras de segurança e situações de risco.
A prioridade é deixar os interesses profissionais de lado e entender que políticas e regulamentações inconsistentes precisam ser resolvidas antes de defender interesses individuais. Para os pacientes, não interessa quem prescreve ou quem realiza o procedimento, o que eles querem é cuidar da saúde com qualidade e segurança.