Fé acima da ética

Bove diz que prefere um corrupto cristão e reacende debate sobre ética; deputado é réu por violência doméstica e descumprimento de medida protetiva

Deputado do PL afirmou que, diante de dois candidatos corruptos, escolheria o cristão. Declaração contrasta com sua própria situação na Justiça e reacende o debate sobre coerência entre discurso e prática

Réu por violência doméstica, Bove enfrenta contradições entre seu discurso de moralidade e sua conduta pessoal - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Jair Viana Publicado em 08/07/2026, às 19h46

A política brasileira já conviveu com muitas tentativas de justificar o injustificável. Lucas Bove (PL-SP) acaba de acrescentar mais uma à lista: a religião.

Durante participação no podcast Iron Talks, o deputado estadual afirmou que, se tivesse de escolher entre dois candidatos corruptos, votaria naquele que fosse cristão para impedir a vitória de Lula. A declaração relativiza a corrupção ao sugerir que a fé pode ser um critério mais importante do que a honestidade na escolha de um representante público.

O discurso chama atenção porque parte justamente de um parlamentar que frequentemente se apresenta como defensor da família, da moral e dos valores cristãos. Mas esses mesmos valores passaram a ser questionados quando sua ex-esposa o acusou de agressões físicas e psicológicas.

Bove é réu por violência doméstica e também por descumprimento de medidas protetivas concedidas à ex-esposa. O caso ganhou repercussão nacional, chegou ao Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e segue em tramitação na Justiça. O deputado nega as acusações.

Ao defender que um candidato corrupto pode ser a melhor escolha apenas por professar a fé cristã, o parlamentar acaba transmitindo uma mensagem preocupante: a de que a corrupção pode ser relativizada quando acompanhada de um discurso religioso. Em vez de colocar a honestidade, a ética e o respeito ao dinheiro público como requisitos inegociáveis, Bove sugere que a identidade religiosa seja suficiente para justificar o voto.

A declaração também expõe uma contradição inevitável. Quem cobra moralidade dos adversários e faz da fé uma bandeira política naturalmente passa a ser cobrado pela própria conduta. A coerência entre discurso e prática torna-se ainda mais relevante quando o agente público responde a processos relacionados justamente aos valores que costuma defender em público.

Procurada pela reportagem, a assessoria de Lucas Bove foi questionada sobre as declarações feitas no podcast e sobre a aparente contradição entre o discurso e sua situação judicial. O assessor Helder Bertazzi informou que o deputado não irá se manifestar sobre a entrevista.

A fala de Bove não apenas enfraquece o discurso anticorrupção como também amplia um debate que há anos divide o país: até que ponto a religião pode ser utilizada para relativizar princípios básicos da vida pública? Ao colocar a fé acima da honestidade, o deputado acaba transformando a ética em um elemento secundário — uma posição que inevitavelmente desperta críticas e questionamentos sobre os limites entre convicção religiosa e responsabilidade política.

Lucas Bove

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