Apesar de avanços recentes, quase 13% das matrículas permanecem fora da série correta
Gabriela Nogueira Publicado em 25/09/2025, às 18h09
De acordo com dados recentes do Censo Escolar 2024, aproximadamente 4,2 milhões de estudantes brasileiros estão atrasados em suas respectivas séries escolares, representando 12,5% das matrículas em todo o país. Essa análise foi realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que destaca uma leve redução na distorção da relação idade-série ao longo dos anos, passando de 13,4% em 2023 para os atuais números.
Embora a diminuição do percentual de alunos em atraso seja um avanço significativo, o Unicef alerta que ainda existem desafios críticos a serem enfrentados. A pesquisa evidencia desigualdades marcantes, especialmente quando observadas sob a ótica da raça/cor e gênero dos estudantes. A distorção idade-série é particularmente mais alta entre os estudantes negros, com um índice de 15,2%, quase o dobro do registrado entre estudantes brancos, que é de 8,1%. Além disso, os meninos apresentam uma taxa de atraso escolar de 14,6%, enquanto as meninas têm uma taxa inferior de 10,3%.
A especialista em educação do Unicef no Brasil, Julia Ribeiro, enfatiza que o atraso escolar não deve ser encarado como uma falha isolada do aluno. Ela defende que este fenômeno deve ser analisado dentro de um contexto social mais amplo e envolve a responsabilidade de diferentes setores, incluindo famílias, governos e comunidades escolares. "O conceito de fracasso escolar muitas vezes recai sobre o estudante. É vital compreendê-lo como um reflexo de uma cultura e um conjunto de fatores que contribuem para a reprovação e o abandono escolar", afirma Ribeiro.
A especialista também ressalta que o sentimento de exclusão pode afetar significativamente a vida acadêmica dos alunos. "Quando um estudante se encontra em situação de atraso escolar, ele pode começar a se sentir desconectado da escola. É fundamental reconhecer que cada situação é única e pode variar entre diferentes regiões. Portanto, entender os motivos subjacentes é crucial, e isso requer ouvir os próprios estudantes", acrescenta.
Uma pesquisa anterior realizada pelo Unicef em parceria com a Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec) revelou que 33% dos adolescentes sentem que as escolas não têm conhecimento sobre suas vidas ou as de suas famílias. Ribeiro destaca a importância das escolas como espaços centrais na vida dos estudantes e suas famílias. "Se um terço dos alunos acredita que as escolas desconhecem sua realidade, isso indica um grave problema de desconexão e pode levar ao abandono escolar", ressalta.
O abandono escolar é uma preocupação crescente relacionada ao atraso nas aulas. Embora haja uma melhora nos indicadores educacionais brasileiros nos últimos anos, muitos adultos acima de 25 anos ainda não completaram o ensino médio. Em 2024, o Brasil alcançou 56% da população adulta com ensino médio completo, comparado a 46,2% em 2016.
A obtenção de maior escolaridade está diretamente ligada à participação cidadã e à melhoria das condições socioeconômicas dos indivíduos. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um diploma de ensino superior pode mais do que dobrar o salário no Brasil.
Para apoiar as iniciativas governamentais e educacionais no combate ao fracasso escolar, o Unicef desenvolveu a estratégia chamada Trajetórias de Sucesso Escolar, em parceria com o Instituto Claro e com apoio da Fundação Itaú. Essa abordagem visa formular, implementar e monitorar políticas públicas que combatam essa cultura negativa nas redes públicas de ensino.
"Acreditamos na capacidade transformadora da educação para promover mudanças sociais significativas. Para alcançar esse objetivo, é essencial entender os desafios enfrentados para desenvolver estratégias adequadas", afirma Daniely Gomiero, diretora do Instituto Claro. Ela elogia os esforços do Unicef na oferta de uma visão abrangente do atual cenário educacional brasileiro e na busca por novas perspectivas para milhões de estudantes."