Mudança aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética pretende ampliar o uso de biocombustíveis, mas levanta dúvidas sobre a adaptação de motores mais antigos e importados
Julio Cezar Souza Publicado em 14/07/2026, às 11h21
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou nesta terça-feira (14) o aumento da participação de etanol anidro na gasolina, que passa de 30% para 32%. A medida terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais seis meses, e faz parte da estratégia do governo federal para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
Segundo o colegiado, a decisão leva em consideração o cenário de instabilidade no mercado internacional de petróleo e busca ampliar a presença de combustíveis renováveis na matriz energética brasileira.
Em nota, o CNPE afirmou que a nova composição foi submetida a testes laboratoriais e em condições reais de uso. De acordo com o órgão, foram avaliados desempenho, consumo, dirigibilidade, partida a frio e emissões, sem que fossem identificados impactos relevantes no funcionamento dos veículos, incluindo modelos equipados apenas com motores a gasolina.
Apesar da posição do governo, a mudança divide opiniões entre representantes da indústria automotiva e especialistas em engenharia.
Especialistas apontam necessidade de mais estudos
Para profissionais do setor, o aumento da concentração de etanol pode representar desafios principalmente para veículos mais antigos ou importados, desenvolvidos para operar com percentuais menores do biocombustível.
Entre as preocupações estão o desgaste de componentes do sistema de alimentação, corrosão de peças metálicas, ressecamento de mangueiras e vedações, além de possíveis falhas na bomba de combustível e nos bicos injetores.
Segundo Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), esses efeitos tendem a ser mais frequentes em motores que não foram projetados para trabalhar com uma mistura mais elevada de etanol.
Outro ponto destacado pelos especialistas é o possível aumento no consumo de combustível. Como o etanol possui menor poder energético em comparação com a gasolina, o motor precisa utilizar maior volume de combustível para entregar o mesmo desempenho. Ainda assim, eles ressaltam que essa diferença pode variar conforme o modelo do veículo e as condições de uso.
Veículos antigos podem exigir maior atenção
Oficinas especializadas também alertam para possíveis reflexos na manutenção. De acordo com profissionais do setor, automóveis equipados com carburadores ou sistemas eletrônicos mais antigos podem apresentar dificuldade para compensar automaticamente a nova mistura.
Nesses casos, sintomas como partidas mais demoradas, marcha lenta irregular, perda de potência e pequenos engasgos durante acelerações podem surgir com maior frequência.
Outro efeito apontado é a possibilidade de antecipar a troca de itens como velas de ignição, filtros de combustível, bombas e componentes de vedação, elevando os custos de manutenção, especialmente em veículos importados.
Peças utilizadas em modelos de marcas como Audi, BMW, Mercedes-Benz, Porsche, Land Rover e Volkswagen importados podem ultrapassar milhares de reais, dependendo do componente substituído.
Indústria pede cautela
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirmou ser favorável ao avanço dos biocombustíveis, mas defende que mudanças na composição da gasolina sejam precedidas por um cronograma amplo de testes técnicos.
Segundo a entidade, os ensaios são importantes para assegurar que motores, sensores e demais componentes operem dentro dos parâmetros previstos pelas montadoras e pelas normas técnicas brasileiras.
O posicionamento foi reforçado em conjunto com o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), que considera os testes adicionais uma garantia para consumidores e fabricantes.
Setor sucroenergético defende ampliação
Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a nova mistura foi desenvolvida dentro do programa Combustível do Futuro e baseada em estudos realizados por instituições de pesquisa, como o Instituto Mauá de Tecnologia.
Segundo a entidade, os ensaios demonstraram que a utilização de 32% de etanol não compromete o desempenho nem a durabilidade dos veículos avaliados, inclusive aqueles movidos exclusivamente a gasolina.
A associação também destaca que o setor possui capacidade para atender à demanda adicional de etanol anidro e estima que a medida poderá reduzir significativamente a necessidade de importação de gasolina, fortalecendo a produção nacional de combustível renovável.