Avanço acelerado das apostas online desde 2023 pressiona o orçamento das famílias e agrava a inadimplência no país
Erika Osti Publicado em 28/04/2026, às 14h11
A disparada das apostas online no Brasil transformou um hábito antes pontual em um fator de pressão direta sobre o orçamento doméstico. Em apenas três anos, os gastos mensais com as chamadas bets saltaram de praticamente zero para mais de R$ 30 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O crescimento acelerado, registrado entre 2023 e março de 2026, ocorre em paralelo ao aumento da inadimplência mais grave, ao prolongamento dos atrasos no pagamento de contas e a uma mudança no perfil do endividamento das famílias.
O estudo, apresentado nesta terça-feira (28) em Brasília, mostra que o problema não está necessariamente no número de famílias endividadas, mas na piora da qualidade dessas dívidas. Na prática, mais brasileiros passaram a enfrentar dificuldades reais para quitar compromissos já assumidos, com destaque para o avanço da chamada inadimplência severa, quando o consumidor declara não ter condições de pagar o que deve.
Outro sinal de alerta é o aumento consistente no tempo médio de atraso das dívidas, indicando que o aperto financeiro não é pontual, mas prolongado. Mesmo em um cenário considerado mais favorável, com inflação sob controle, queda no desemprego e maior acesso ao crédito, os efeitos negativos associados às apostas continuaram a crescer.
A análise da CNC aponta ainda uma mudança no comportamento de consumo. Parte significativa da renda das famílias passou a ser direcionada para plataformas de apostas, reduzindo gastos em setores tradicionais. Em dois anos, cerca de R$ 143,8 bilhões deixaram de circular no varejo por causa das bets, um volume comparável ao faturamento de períodos fortes do comércio, como o Natal.
Especialistas identificam uma relação direta entre o avanço das apostas e a deterioração financeira. A cada R$ 1 bilhão gasto em bets, há impacto negativo relevante no faturamento do varejo, evidenciando o desvio de recursos do consumo para o jogo.
O perfil dos mais afetados também chama atenção. Homens, pessoas acima dos 35 anos e famílias de baixa renda aparecem entre os mais vulneráveis ao endividamento agravado. Ainda assim, o fenômeno não se restringe às camadas mais pobres. Entre pessoas com maior escolaridade e renda mais alta, houve aumento nos atrasos de pagamento, sugerindo que o hábito de apostar atravessa diferentes perfis sociais.
Dados complementares reforçam esse quadro. No Distrito Federal, por exemplo, mais de um terço da população declarou ter feito algum tipo de aposta no último ano. A maior concentração está entre pessoas de renda média-baixa, com ganhos entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil, indicando que o impacto tende a ser mais intenso justamente entre quem tem menor margem no orçamento.
Diante do avanço das apostas e dos efeitos sobre a economia doméstica, o estudo recomenda medidas para conter o problema. Entre elas estão a ampliação da regulação da publicidade das plataformas, o reforço da proteção ao consumidor e a expansão de programas de educação financeira. A avaliação final é de que o crescimento das bets já deixou de ser apenas uma tendência de mercado e passou a representar um desafio econômico e social relevante no país.