Predomínio da soja brasileira na China

Brasil amplia liderança no mercado de soja da China enquanto importações dos EUA despencam

Dados alfandegários revelam recorde histórico para o mês de junho impulsionado pela safra nacional; tensões geopolíticas prolongadas afastam compradores de Washington

O aumento das importações de soja brasileira pela China reflete uma mudança nas dinâmicas comerciais globais e geopolíticas - Imagem: Divulgação

Letícia Sales Publicado em 20/07/2026, às 09h44

A balança comercial do agronegócio global registrou um novo marco na relação entre as maiores potências econômicas do planeta. Dados oficiais divulgados nesta segunda-feira (20) pela Administração Geral das Alfândegas da China apontam que o país asiático expandiu significativamente a compra da oleaginosa brasileira, ao mesmo tempo em que encolheu a dependência do produto norte-americano no mês de junho. O movimento consolida uma rota de comércio que vem se desenhando desde o início das disputas tarifárias entre Washington e Pequim.

Os terminais portuários chineses receberam 12,08 milhões de toneladas de soja de origem brasileira apenas em junho, o que representa um salto de 13,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Em contrapartida, os embarques vindos dos Estados Unidos sofreram uma retração de 20,6%, recuando de 1,6 milhão para 1,27 milhão de toneladas no mesmo intervalo.

Somadas todas as origens, a China internalizou 13,55 milhões de toneladas do grão no mês, estabelecendo o maior volume já registrado para um mês de junho na história do país. O desempenho inédito foi viabilizado pela forte disponibilidade da safra brasileira e pela aceleração no desembaraço de cargas que aguardavam liberação nos portos locais.

Cenário semestral e o fator geopolítico

O balanço acumulado nos primeiros seis meses deste ano evidencia um distanciamento ainda maior entre os dois principais fornecedores globais. Enquanto o volume da soja americana que desembarcou em solo chinês despencou 42,4%, somando 9,31 milhões de toneladas, o fluxo vindo das lavouras brasileiras avançou 9,1%, atingindo a marca de 34,750 milhões de toneladas no primeiro semestre.

Analistas do setor apontam que o recuo americano é um reflexo direto do prolongamento do desgaste diplomático e comercial entre o governo dos EUA e a gestão de Pequim. Ao longo do último ano, indústrias e tradings chinesas postergaram a assinatura de contratos de suprimento com produtores dos EUA, aguardando sinalizações claras das rodadas de negociação bilateral.

A postura de cautela foi parcialmente flexibilizada após o encontro de cúpula realizado em maio entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping. A partir do diálogo, a China retomou parte das encomendas e assegurou a manutenção do compromisso de importar uma cota mínima anual de 25 milhões de toneladas de soja dos EUA até o ano de 2028. Apesar da trégua diplomática, o produto do Brasil preservou sua hegemonia nas preferências de esmagamento da China, amparado por uma colheita recorde e por condições de preço mais competitivas no mercado internacional.

Desafio para a indústria manufaturada

A forte tração das matérias-primas acende um alerta para outros setores da economia brasileira. Companhias nacionais que exportam bens industrializados de maior valor agregado para os Estados Unidos — e que correm o risco de perder espaço de mercado em decorrência de novas barreiras tarifárias americanas — encontrarão forte resistência se tentarem redirecionar esse excedente para o mercado asiático.

A dinâmica comercial de Pequim com o Brasil é fortemente concentrada no abastecimento de commodities agrícolas e minerais. Os produtos industrializados e manufaturados brasileiros enfrentam barreiras alfandegárias mais rígidas e uma concorrência agressiva de indústrias locais da China, além de fornecedores tradicionais de outras regiões globais.

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