Arquivos secretos sobre a fuga e proteção de nazistas no pós-guerra serão desclassificados pelo governo argentino em gesto histórico
Agenor Duque Publicado em 31/03/2025, às 08h33
Em uma reviravolta histórica que promete remexer os alicerces da memória argentina, o presidente Javier Milei determinou a desclassificação de todos os arquivos oficiais relacionados à entrada e proteção de nazistas no país após a Segunda Guerra Mundial.
A decisão, celebrada por instituições de direitos humanos como o Centro Simon Wiesenthal, visa lançar luz sobre o papel da Argentina como rota de fuga de criminosos de guerra.
Estima-se que ao menos 5 mil ex-membros do regime nazista tenham se estabelecido na Argentina entre o fim da guerra e a década de 1950, muitos sob identidades falsas. O caso mais emblemático foi o de Adolf Eichmann, arquiteto logístico do Holocausto, capturado em Buenos Aires em 1960 por agentes do Mossad. Josef Mengele, o infame "Anjo da Morte" de Auschwitz, também teria passado pelo país antes de viver no Brasil, onde morreu em 1979.
A ordem de Milei foi oficializada após um encontro com o Centro Simon Wiesenthal, que há décadas pressiona governos sul-americanos por transparência. O presidente garantiu acesso irrestrito aos documentos, o que poderá revelar não apenas nomes e rotas de fuga, mas também cúmplices locais que facilitaram a estadia dos fugitivos. Segundo especialistas, muitas dessas redes contaram com apoio institucional e até financeiro.
A iniciativa também atende ao pedido do senador norte-americano Chuck Grassley, que investiga possíveis contas bancárias ligadas a nazistas no Credit Suisse. Ele elogiou a decisão como uma colaboração crucial para a verdade histórica e a justiça internacional. A Argentina, que já fora palco de silêncio e acobertamento, pode agora ser referência em transparência.
Contudo, a decisão não ocorre em um vácuo político. O governo Milei tem enfrentado críticas por discursos revisionistas relacionados à última ditadura militar argentina. A destruição de monumentos e a relativização de crimes do Estado geraram reações negativas. Para alguns analistas, a liberação dos arquivos nazistas surge também como uma resposta simbólica para reafirmar um compromisso com a verdade, mesmo que seletiva.
Com os olhos do mundo voltados à Casa Rosada, a expectativa é que os arquivos tragam respostas, mas também provoquem novos debates. Qual será o impacto dessas revelações sobre a sociedade argentina e seus vizinhos latino-americanos, como o Brasil, onde também se refugiaram ex-nazistas? A história, enfim, poderá falar sem censura — e o eco de suas palavras pode ser ensurdecedor.