Passageiros voltaram a enfrentar dificuldades nesta terça-feira; audiência no TRT-1 é a principal aposta para encerrar a paralisação dos rodoviários

Letícia Sales Publicado em 30/06/2026, às 08h13
O Rio de Janeiro acordou mais uma vez com ônibus escassos e pontos de parada lotados. No segundo dia consecutivo de greve dos motoristas de ônibus municipais, moradores recorreram às redes sociais para relatar a falta de coletivos e o transtorno nas ruas — enquanto a cidade aguardava, com cautela, o desfecho de uma audiência de mediação marcada para as 11h no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1).
Segundo o Rio Ônibus, entidade que representa as empresas do setor, 1.350 ônibus circulavam pela cidade na manhã desta terça — número abaixo do mínimo de 1.800 veículos (equivalente a 50% da frota) exigido por decisão judicial. A entidade, no entanto, destacou que o volume representava mais que o dobro do registrado no mesmo horário de segunda-feira e reforçou o apelo para que motoristas e rodoviários retornassem às garagens e cumprissem a determinação da Justiça.
Diante do cenário, o Centro de Operações de Resiliência (COR) orientou a população a priorizar o metrô, os trens e as barcas, modais que operaram normalmente ao longo do dia. O prefeito Eduardo Cavaliere foi direto:
''Quem mora próximo ao metrô, ao trem e às barcas, eles são uma alternativa do sistema de ônibus comuns, que está com funcionamento irregular. Então quem puder optar por esses modais, certamente não vai ter qualquer intercorrência. No caso dos BRTs, a mensagem aos cariocas é que os BRTs estão funcionando com 70% da sua frota. Isso está dando vazão, claro que não é o ideal, não é o tempo de intervalo ideal. A gente não tem o mesmo serviço expresso funcionando com a mesma frequência que tem num dia comum, mas para um dia como hoje, que é um dia atípico, os BRTs estão funcionando dentro do aceitável, afinal, 70% da frota é garantida circulando.''
Cavaliere também não poupou críticas aos trabalhadores das linhas municipais: — Agora, infelizmente, os ônibus comuns, mais uma vez, sem cumprir a decisão judicial, e o que a gente defende sempre aqui, é importante dizer isso para os cariocas, é que a gente cumpre as decisões judiciais, e a gente espera que não só a decisão seja cumprida, como não cumprimento da decisão judicial, também tenha consequências.
Reforços no trilho e no corredor
Para absorver parte da demanda, a TrensRJ montou uma operação especial com 30 viagens extras distribuídas ao longo do dia, reduzindo os intervalos entre trens nos horários de pico da manhã e da tarde. A concessionária também mobilizou equipes adicionais de estações, segurança e monitoramento para orientar passageiros e garantir fluidez na operação.
Nos corredores de BRT, a MOBI-Rio informou que às 6h desta terça a frota já apresentava aumento de 26% em relação ao dia anterior. Dos 541 articulados que normalmente circulam no horário de pico, 361 estavam nas ruas — o equivalente a 67% da operação programada.
O que os rodoviários querem
A categoria exige piso salarial de R$ 4 mil para motoristas de ônibus convencionais e R$ 5 mil para condutores de articulados, além de reajuste no vale-alimentação e adoção da escala de trabalho 5x2. O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirmou que a greve seguiria até a realização da audiência e demonstrou expectativa com o desfecho:
"Esperamos sinceramente que amanhã o TRT já defina essa situação para que os usuários não continuem sendo prejudicados. O fato de a Justiça considerar a legalidade da greve é de grande importância e uma grande vitória para a categoria, pois reconhece as dificuldades que os trabalhadores do setor vêm sofrendo durante todos esses anos, com salários defasados, terminais sem banheiros e bebedouros e com o aumento da violência."
Sebastião também revelou que, até o momento, o sindicato não havia recebido qualquer retorno das empresas sobre as reivindicações apresentadas.
No sábado, o TRT-1 reconheceu a legalidade da paralisação e indeferiu o pedido do Rio Ônibus para declará-la ilegal. A desembargadora Maria Helena Motta determinou a manutenção de pelo menos 50% da frota por linha, fixou multa de R$ 50 mil para os dois sindicatos em caso de descumprimento e proibiu as empresas de contratar motoristas temporários ou de demitir funcionários que aderiram ao movimento. Em sua decisão, a magistrada justificou o patamar elevado de contingência:
— O direito de greve é garantia constitucional de extrema relevância, contudo deve coexistir harmoniosamente com a continuidade das atividades essenciais indispensáveis ao atendimento das necessidades da comunidade. O transporte público urbano funciona como um serviço de suporte básico e sua interrupção integral inviabilizaria o deslocamento dos cidadãos e comprometeria o funcionamento de outros setores vitais, tais como hospitais, escolas e serviços de segurança pública (...) A extensão geográfica e a densidade demográfica do Município do Rio de Janeiro exigem um patamar de contingência superior (aos 30%) para evitar o colapso completo da mobilidade urbana.
Após a audiência no TRT-1, o Sindicato dos Rodoviários convocou uma assembleia da categoria para as 11h30, em frente ao tribunal. A expectativa era de que as negociações produzissem uma proposta capaz de encerrar a greve e devolver normalidade a uma cidade que, por dois dias seguidos, precisou improvisar para se mover.
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