O excesso de zelo no uso da linguagem pode acabar gerando mais problemas do que soluções

por Reinaldo Polito
Publicado em 08/09/2024, às 11h55
A vida está ficando muito chata com esse patrulhamento do politicamente correto.
Ouvimos com frequência algumas pessoas dizerem com certa resignação que a vida está chata. Essa opinião é dada normalmentepor causa do uso exagerado do politicamente correto. Embora a intenção inicial desse processo fosse promover o respeito mútuo, os excessos acabampor desvirtuar sua função, gerando rejeição por parte de muitos. Esticaram tanto a corda que ela corre o risco de se romper.
Há alguns anos, quando surgiram os primeiros sinais de patrulhamento impondo o que as pessoas podiam ou não dizer, fiquei revoltado. Tomei a decisão de jamais me render a essa cartilha estranha. Não durou muito, entretanto, a minha insubordinação. Em pouco tempo eu já estava reconsiderando aquela minha posição tão radical.
Independentemente de aceitar ou não que essa ou aquela palavra, por exemplo, poderia ser usada, estudei o tema com profundidade e trouxe o assunto para a sala de aula. Passei a orientar os alunos do nosso curso de oratória sobre o perigo de invadir a linha estabelecida por quem tenta moldar a sociedade entre o certo e o errado.
É preciso observar que nem todas as situações são iguais. Se determinada palavra ou expressão agride ou diminui uma pessoa, deve ser evitada na comunicação. Dessa forma, ainda que em certas ocasiões não concordemos, não podemos correr o risco de prejudicar a nossa imagem, reputação ou causa que defendemos, e ofender desnecessariamente o outro.
Esse é o ponto que devemos considerar. Não adianta dar murros em ponta de faca apenas para satisfazer a nossa maneira de ver as coisas.Trabalhar em direção à convergência deve ser sempre fundamental para uma condição social justa e igualitária.
Só que alguns defensores do politicamente correto ultrapassam todos os limites que a paciência poderia tolerar. Tentam impor conceitos que ferem o bom sensogoela abaixo. Para esses casos, faço valer aquela decisão inicial de não acatar tontices. Basta seguir o lema atribuído a Herbert Spencer: “A minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro”.
Se deixarmos que essas imposições esdrúxulas prevaleçam, nós é que estaremos nos acovardando e nos despersonalizando. Nesses casos extremos, devemos nos blindar para rechaçar qualquer investida indevida.
Ao rechaçar esses extremos das regras de convivência, podemos nos valer do que disse Nietzsche: “Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza nenhuma. Porém, eu iria pelo direito de ter a minha opinião, quantas vezes quisesse”.
Como aceitar, por exemplo, que não possamos nos referir a “Deus” como “Ele”, pois alguns defensores do politicamente correto julgam que o Ser Supremo não é um homem e, portanto, questionam se deveria mesmo ser mencionado no masculino.
Há quem não aceite que se diga “homem” para identificar “os humanos”, mas sim “ser humano”, já que dessa maneira não estaríamos privilegiando o homem em detrimento da mulher.
Querem excluir, sem nenhum motivo que justifique, palavras como “criado-mudo”, “denegrir”, além de uma aberração que é dizer “escurecer” no lugar de “esclarecer”. Outra imposição que ganha força é a do uso do pronome neutro. A população, de forma geral, reagiu muito mal a essa tentativa.
Houve um caso curioso. Um humorista fez piada com o fato de ser obeso, um exemplo claro de autogozação. Uma pessoa que estava na plateia subiu ao palco e o espancou por ter se sentido ofendida. Uma atitude totalmente despropositada.
São esses exageros que irritam e fazem com que muitas pessoas se oponham às ideias do politicamente correto. Afora esses casos extremados, será possível adotar um comportamento de respeito e de compreensão com as pessoas que nos cercam.
A revolta de alguns diante dessa questão só pode prejudicá-los. Esse não é o caminho a ser seguido. Ficar atentos com a forma como falamos é prudente e indicativo de sabedoria. Especialmente nesse período de transição, devemos estar conscientes dos limites que separam o exagero da responsabilidade que devemos ter ao usar vocábulos e expressões que possam provocar dissabores.
A sabedoria para uma boa convivência com esse tema está em encontrar equilíbrio entre a liberdade de expressão e o respeito ao próximo, sem cair nos extremos que podem tornar o desejado diálogo em uma imposição antipática.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de Oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão de Marketing e Comunicação, Gestão Corporativa e MBA em Gestão de Marketing e Comunicação na ECA-USP. Escreveu 37 livros, com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram: @polito pelo facebook.com/reinaldopolitopergunte no https://reinaldopolito.com.br/home/
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