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COLUNA

O julgamento de Bolsonaro acirra a polarização no país

Imagem: Ton Molina/STF
Imagem: Ton Molina/STF
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 07/09/2025, às 14h58


Polarização política. Até o tema em si divide opiniões. Há quem critique essa oposição ferrenha de ideias. Defendem que é preciso pacificar o país e que, para haver harmonia, as opiniões não podem ser tão diversas. Mas, quando instados a abandonar suas bandeiras ideológicas, não aceitam.

Ou seja, gostariam de ver o país em paz desde que o outro lado cedesse. Na verdade, o que desejam no fundo não é pacificação, mas rendição. Falam alto, discursam com veemência para que todos deem as mãos, desde que os opositores baixem as armas. Não escondem que tudo ficaria melhor se os adversários sucumbissem.

O teatro das tesouras

Os defensores da polarização afirmam que, durante muito tempo, houve um "teatro das tesouras". Partidos como PT e PSDB encenavam confrontos, ora um vencia, ora outro. Só bem mais tarde é que "as máscaras" teriam caído.

Bastou Bolsonaro vencer as eleições para que os que se diziam inimigos passassem a andar de mãos dadas. Fernando Henrique Cardoso, um dos mais contundentes opositores de Lula, não vacilou em declarar apoio ao petista na campanha de 2022. Alguns demoraram a ajustar as lentes e perceber a nova realidade.

Uma aliança surpreendente

Da mesma forma, Geraldo Alckmin também brigava em público. Quem não se lembra das palavras duras de 2017?: "Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder, ou seja, ele quer voltar à cena do crime." Não demorou para que o verdadeiro viés aflorasse. Em abril de 2022, num evento com centrais sindicais em São Paulo, Alckmin proclamou a plenos pulmões: "A luta de vocês, a luta sindical, deu ao Brasil o maior líder popular deste país: Lula. Viva Lula. Viva os trabalhadores do Brasil."

Os comentários incrédulos de muitos que assistiram variaram de "devo estar sofrendo um pesadelo" a "agora entendi o sentido de vergonha alheia". E os antigos "adversários", reaproximados, vivendo entre abraços, afagos e apertos de mãos.

A origem do imbróglio

Após a eleição de Fernando Collor de Mello, o único embate sem camuflagem foi o de Bolsonaro com o indicado de Lula, Fernando Haddad. O grande líder petista ficou fora do pleito de 2018 por estar preso em Curitiba. Em 2022, aí sim, Lula e Bolsonaro disputaram a presidência.

Lula venceu por margem mínima: 50,83% a 49,17%. A diferença apertada alimentou a resistência de setores bolsonaristas em aceitar o resultado, e muito do imbróglio atual sobre a suposta tentativa de golpe tem origem nessa desconfiança. Esses números também contribuíram para a polarização.

Trump entrou na disputa

O julgamento do ex-presidente virou uma espécie de Fla-Flu nacional. Governistas reúnem argumentos para condená-lo; bolsonaristas apontam armação e fragilidade das acusações. E ambos acreditam contar com aliados poderosos.

Desde julho de 2025, o debate ganhou contornos internacionais: Donald Trump passou a exigir publicamente o fim imediato do julgamento, classificando-o como "caça às bruxas". Poucos dias depois, seu governo anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando a medida diretamente ao caso.

Uma forte pressão

O gesto foi interpretado como recado explícito de que o processo contra Bolsonaro não era apenas um tema doméstico, mas também um ponto de tensão na relação bilateral.

A ofensiva não parou aí. Em 30 de julho, o Departamento do Tesouro sancionou Alexandre de Moraes sob a Lei Global Magnitsky, bloqueando bens sob jurisdição americana e restringindo transações financeiras com instituições ligadas aos EUA. Poderá atingir também familiares próximos, aumentando ainda mais a temperatura do conflito político e diplomático.

Cada lado com sua ideologia

O efeito simbólico dessa intervenção externa foi combustível para as torcidas organizadas da política: para um lado, prova de que há perseguição; para o outro, evidência de que a pressão internacional exige responsabilização. Nas redes, cada campo consome versões distintas da realidade, reforçando identidades e ampliando trincheiras.

Há, entretanto, uma certeza: com todos esses acontecimentos, independentemente de Bolsonaro ser ou não condenado, a polarização tende a se acirrar. Quem pede "paz" quase sempre deseja a deposição das armas do outro. Como ninguém está disposto a se render, continuaremos a conviver com esse estado de espírito crônico, uma espécie de fotochart interminável, em que a fotografia do pódio muda por milímetros e a corrida nunca termina.

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