Falar em público não é tarefa simples. Possível a todos, mas não é simples, mesmo para aqueles que não tenham nenhuma limitação física.

Redação Publicado em 04/07/2021, às 00h00 - Atualizado às 12h01
Falar em público não é tarefa simples. Possível a todos, mas não é simples, mesmo para aqueles que não tenham nenhuma limitação física.
Algumas pessoas, ainda que tivessem restrições aparentemente intransponíveis, me impressionaram pela capacidade de superação. Uma delas, um jovem de apenas 18 anos, depois de ter amputado os dois braços e as duas pernas, foi o primeiro a colocar próteses nos quatro membros. Teve de aprender a andar com as pernas mecânicas, e a pegar objetos, como o garfo para comer, por exemplo, também com os braços e mãos artificiais.
Sua determinação e disciplina foram tão admiráveis que serviu de exemplo para outras pessoas com situação semelhante à sua. Por isso, foi convidado a ministrar palestras a empresas. Por causa desses compromissos, me procurou para preparar e treinar suas apresentações.
Fiquei muito emocionado ao ver aquele rapaz cheio de energia e motivação, querendo falar em público. Aprendeu a gesticular com as próteses, a se movimentar na frente do grupo com aquelas pernas acopladas em seu tronco. Ele vibrava a cada conquista. E eu refletia – e pensar que tem gente que acha que nunca poderá superar suas dificuldades para falar em público!
A história está repleta de exemplos de pessoas que tiveram de falar diante de multidões em condições físicas bastante limitadas. Um dos casos mais marcantes foi o de Frei Francisco do Monte Alverne, um dos maiores pregadores da história brasileira. Como pregador Real, com sua oratória de alta qualidade, encantou diversas gerações. Seus sermões eram tão extraordinários que muitas pessoas conseguiam dizer de memória cada uma de suas palavras. Sua história é fascinante, tanto que ao assumir como membro titular fundador a cadeira número 36 da Academia Araraquarense de Letras eu o escolhi como patrono.
Em 1836, quando estava com 52 anos de idade, ele ficou cego. Entristecido por estar com saúde precária, sem interesse de ir ao púlpito, pelo fato de não conseguir enxergar as pessoas que acorriam em grande quantidade para assisti-lo, o velho pregador se recolheu ao silêncio de seu claustro. E ali, afastado de todos, permaneceu por longos 18 anos, até que d. Pedro II o convidou para pregar em uma importante cerimônia.
Por mais que desejasse ficar afastado de todos, não poderia recusar um convite pessoal do Imperador. Em 1854, as pessoas ficaram exultantes ao saber que Monte Alverne voltaria a pregar depois de tantos anos ausente do púlpito. Roberto Belarmino Lopes, em sua obra “Monte Alverne, pregador imperial”, diz que o recinto do templo estava tão apinhado de gente que mal se podia respirar. Ele mesmo, que esteve presente no evento, afirma que encarava o ancião quase com pavor, como se estivesse diante de um ente sobrenatural.
O seu exórdio (início da fala) arrancou lágrimas à maioria da audiência e pelo corpo de Lopes correram calafrios ao ouvir-lhe as palavras cheias de saudade com que recordava suas glórias passadas. Esse sermão de Monte Alverne é uma das peças oratórias mais eloquentes de que se tem notícia. Imagine o velho pregador, cego, após 18 anos ausente do púlpito dizendo estas palavras:
“É tarde! É muito tarde! Seria impossível reconhecer um carro de triunfo neste púlpito, que há 18 anos é para mim um pensamento sinistro, uma recordação aflitiva, um fantasma infenso e importuno, a pira que arderam meus olhos, e cujos degraus desci só e silencioso para esconder-me no retiro do claustro”.
Se hoje, tão distante no tempo, nós nos emocionamos ao ler essas palavras, dá para imaginar como se sentiram aqueles que estavam presentes naquele seu retorno ao púlpito. Foi, com certeza, um dos momentos mais tocantes da história da eloquência do nosso país.
E para encerrar, um exemplo pessoal. Quando eu tinha menos de dois anos de idade, depois de um incêndio na casa onde morava, além das queimaduras de terceiro grau, por causa do trauma, fiquei mudo, e só depois de algum tempo voltei a falar, mas totalmente gago. Por sugestão dos médicos que cuidavam de mim, meus pais me ensinaram versos infantis como treinamento. Diziam os médicos que assim como o cantor gago não gagueja quando canta, as poesias poderiam ter o mesmo efeito.
Não sei se foram as poesias que resolveram o problema, mas a gagueira despareceu. E lá no curso primário, durante as festas comemorativas, passei a fazer o que havia aprendido no meu treinamento para deixar de ser gago, recitava as poesias diante dos coleguinhas. Os professores incentivavam e os amiguinhos aplaudiam. E talvez tenha nascido aí a minha vocação para ser professor de oratória. Atividade que exerço com muito prazer há mais de quatro décadas.
Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Escreveu 34 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito pelo facebook.com/reinaldopolito pergunte no [email protected]
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