
por Reinaldo Polito
Publicado em 03/11/2024, às 08h19
Houve época em que os jogadores de futebol eram apanhados desprevenidos pelos repórteres esportivos. Assim que terminava o jogo, ainda cansados e tentando recuperar o fôlego, muitas vezes se obrigavam a responder a perguntas complexas e até comprometedoras.
Houve casos folclóricos. Em um deles, o jornalista comentou indignado com um jogador que dava a ele uma de suas respostas programadas com as mesmas palavras de sempre: você responde sempre a mesma coisa? E o atleta, com ironia, retrucou: “Mas você faz sempre a mesma pergunta!”.
Uma história curiosa
Talvez alguns estejam pensando: você não está insinuando que os jogadores de futebol são bons comunicadores, né? Nada de insinuação; estou afirmando. Há até uma história bastante curiosa.
Em setembro de 1999, foi lançada a revista “Vencer”, uma das mais bem-sucedidas do país. Um mês antes do lançamento, Margot Cardoso, diretora de redação, me entrevistou para uma matéria sobre “entrevista de emprego”. Ela gostou tanto que fez questão de me ligar.
O convite
“Polito, você tem um pensamento lógico, a entrevista ficou excelente. Não gostaria de escrever um artigo para a nossa primeira edição?” Eu não conhecia ninguém, mas gostei da forma profissional como me tratou. Aceitei.
O meu texto de estreia foi “Assim é que se joga – aprenda a falar com o jogador de futebol”. Deu certo. Lá veio Margot de novo: Polito, foi a matéria mais comentada, não quer escrever para a próxima edição? E assim fiquei lá por dez anos, durante toda a existência da revista.
Matando a curiosidade
Vou reproduzir aqui alguns trechos daquele meu primeiro texto. “Agora você terá uma nova tarefa para se projetar e vencer na sua atividade – a partir de hoje começará a ouvir as entrevistas dos jogadores de futebol para aprender com eles como evitar os graves erros de comunicação geralmente cometidos”.
A explicação
Antecipando a incredulidade e até críticas, expliquei meu ponto. Falei como se estivesse conversando com o leitor:
“Não ria - eu estou falando sério. Você deve estar pensando, esse pirou!
Que história é essa de aprender a falar com os jogadores de futebol?!
Eles não sabem falar, cometem erros grosseiros de gramática, escorregam na concordância, conjugam verbo como se estivessem chutando de bico, fazem aleluia de pronome, jogando-o no meio das frases e onde cair está bom, pronunciam as palavras de maneira defeituosa, enfim são péssimos exemplos de comunicadores. Certo? Errado!”.
Uma isca para capturar a atenção
Sabendo que já havia criado expectativa e fisgado o leitor com esses comentários, apresentei minha tese, inicialmente concordando com os críticos, para depois desenvolver o meu ponto de vista:
“A maioria apresenta mesmo todas essas incorreções e muitas outras que poderíamos enumerar, mas possuem quase sempre uma habilidade, uma diplomacia e um jogo de cintura, que normalmente não encontramos nos profissionais que atuam em outras atividades, nem mesmo na política, que deveria ser o grande exemplo dessa comunicação inteligente”.
“[...]Aplaudo de pé quando vejo um jogador responder às perguntas provocativas dos repórteres esportivos. Parece que passaram por um longo e rígido programa de treinamento no Itamarati, aprendendo como se comportar nessas ocasiões. Por mais quadrada que venha a pergunta eles não matam de canela, quase sempre respondem com a bola no chão”.
“[...] Se, por exemplo, o repórter pergunta, em tom afirmativo:
— Você estava atuando como titular e jogando muito bem até o mês passado, quando o técnico o sacou do time. Essa injustiça o deixou muito revoltado, não?
É lógico que ele está louco da vida e com vontade de jogar o Ceasa na cabeça do treinador, mas sua resposta é inteligente e impregnada de sutilezas diplomáticas:
— Faço parte de um grupo de 22 jogadores em condições de pertencer a qualquer grande clube. Estar nessa equipe é o sonho da maioria dos atletas profissionais. E todos nós, jogando ou não, torcemos sempre para que o time conquiste os melhores resultados, porque assim todos ganhamos.
“O professor (geralmente é assim que se referem ao técnico) tem um esquema tático muito bem montado, que varia de acordo com as características do adversário, e ora precisa da participação de um jogador, ora de outro. O importante é nos prepararmos para estar bem quando ele precisar. Ouça as entrevistas e confirme o que estou dizendo”.
Eles são hábeis tanto para falar quanto para jogar
De lá para cá nada mudou. Eles dominam a arte de driblar perguntas difíceis com a mesma habilidade que têm em campo. E de onde vem essa destreza?
Talvez pela necessidade de sobrevivência mais acentuada do jogador, que atua numa atividade tão arriscada, repleta de armadilhas, em que nada é definitivo e só se tem uma certeza - que terá duração curta, pois com 32 anos já é um veterano.
Talvez pelo treinamento constante do jogador, que precisa tomar decisões das jogadas numa fração de segundo, que o prepara para analisar rapidamente as consequências de uma resposta indevida.
A verdade é que eles são bons nessa história de falar e dar respostas às perguntas difíceis.
Preste atenção no jeito de falar dos jogadores. Esqueça por um instante as incorreções gramaticais e observe a competência que a maioria tem para se sair das perguntas mais delicadas. Afinal, quem não gostaria de ter uma resposta precisa e diplomática pronta na ponta da língua?!
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