Diário de São Paulo
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Senado permite retenção de sobras de diárias e caso de Jaques Wagner expõe brecha nas regras

Ausência de norma para devolução de valores não utilizados em viagens oficiais permite que parlamentares mantenham recursos remanescentes de diárias. Tema ganhou repercussão após a apreensão de dólares e euros na residência do senador Jaques Wagner.

Debate ganhou força após apreensão de dólares e euros na residência do senador Jaques Wagner - Imagem: Reprodução
Debate ganhou força após apreensão de dólares e euros na residência do senador Jaques Wagner - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Publicado em 20/06/2026, às 15h48


A descoberta de R$ 471 mil em moeda estrangeira na casa do senador Jaques Wagner levantou questões sobre a transparência nas diárias de viagens oficiais, que não precisam ser devolvidas se não utilizadas integralmente. O senador justificou o montante como sobras de diárias acumuladas durante missões internacionais.

Atualmente, não há norma que exija a devolução de valores excedentes, exceto em casos de cancelamento de viagens ou retorno antecipado. Entre janeiro e junho de 2026, o Senado gastou mais de R$ 1 milhão em diárias para viagens internacionais, evidenciando a falta de controle sobre esses gastos.

Embora não haja irregularidade na posse dos recursos por Wagner, o episódio expôs uma lacuna nas regras do Senado, que pode levar a uma revisão das normas de prestação de contas e controle de despesas. Especialistas sugerem que a situação demanda uma discussão mais ampla sobre a gestão das diárias e a necessidade de maior fiscalização.

A descoberta de aproximadamente R$ 471 mil em moeda estrangeira na residência do senador Jaques Wagner reacendeu o debate sobre a transparência e o controle dos recursos públicos destinados a viagens oficiais de parlamentares. O montante, composto por US$ 55 mil e 33 mil euros em espécie, foi justificado pelo senador como resultado de sobras acumuladas de diárias recebidas ao longo de missões internacionais realizadas pelo Senado.

O episódio trouxe à tona uma particularidade pouco conhecida das regras da Casa: atualmente, não existe norma específica que obrigue senadores a devolverem recursos de diárias que não tenham sido integralmente utilizados durante viagens oficiais.

Em resposta à imprensa, o Senado Federal confirmou que não há qualquer disposição normativa prevendo a restituição de valores excedentes. A única hipótese em que a devolução é obrigatória ocorre quando a viagem é cancelada ou quando o parlamentar retorna antes da data inicialmente prevista.

As diárias têm caráter indenizatório e são destinadas a cobrir despesas relacionadas ao exercício do mandato, como hospedagem, alimentação, transporte e demais custos decorrentes de deslocamentos oficiais. Por essa razão, os valores recebidos não são tributados pelo Imposto de Renda.

O sistema permite que o pagamento seja realizado por transferência bancária, depósito em conta ou até mesmo em espécie, conforme escolha do beneficiário. Uma vez concedida a diária, não há mecanismo formal para prestação detalhada de contas sobre cada gasto individual realizado durante a viagem.

Em 2026, os valores pagos aos senadores em missões internacionais variam de acordo com o destino. Para viagens fora da América do Sul, a diária é de US$ 656,46 por dia. Considerando a cotação de R$ 5,16 por dólar, isso representa aproximadamente R$ 3,3 mil diários. Para outros destinos internacionais, o valor é de US$ 557, o equivalente a cerca de R$ 2,8 mil por dia.

Nas viagens nacionais, os parlamentares recebem R$ 916 por dia quando o destino é uma grande cidade. Em municípios com até 200 mil habitantes, a diária é de R$ 726. Os valores passam por atualizações periódicas conforme critérios administrativos da Casa.

O benefício também é concedido a servidores do Senado, embora os valores variem de acordo com a função exercida e o nível do cargo ocupado.

Dados oficiais apontam que, entre janeiro e 18 de junho de 2026, o Senado desembolsou mais de R$ 1 milhão apenas com diárias para viagens internacionais. O volume de recursos movimentados e a inexistência de uma regra para devolução de sobras ampliaram o debate sobre a necessidade de aperfeiçoamento dos mecanismos de controle e fiscalização dos gastos públicos.

Especialistas em gestão pública costumam apontar que diárias possuem natureza indenizatória justamente para simplificar a cobertura de despesas durante deslocamentos. No entanto, o caso reacendeu questionamentos sobre a conveniência de permitir que valores não utilizados permaneçam integralmente com os beneficiários sem exigência de prestação de contas detalhada.

Embora não haja indício de irregularidade na posse dos recursos por parte do senador, uma vez que a prática está amparada pelas regras atuais do Senado, o episódio expôs uma brecha administrativa que pode voltar ao centro das discussões no Congresso Nacional.


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