Diário de São Paulo
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Nikolas Ferreira acusa esquerda de usar fim da escala 6x1 como palanque eleitoral

Deputado criticou a aprovação da PEC que reduz a jornada semanal para 40 horas, disse que o debate ignorou produtividade, impostos e custo de vida, e afirmou que o trabalhador pode pagar a conta com aumento de preços e risco de demissões

Nikolas Ferreira discursou no plenário da Câmara durante debate sobre a PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas - Imagem: Reprodução
Nikolas Ferreira discursou no plenário da Câmara durante debate sobre a PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada semanal de trabalho para 40 horas - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Publicado em 28/05/2026, às 13h25


A Câmara dos Deputados aprovou a PEC que elimina a escala 6x1, reduzindo a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso, mas a proposta ainda precisa passar pelo Senado para ser incorporada à Constituição.

Defensores da PEC argumentam que a mudança é um avanço para trabalhadores de setores com jornadas exaustivas, enquanto críticos alertam que a redução sem um acordo econômico pode aumentar custos para empresas e impactar negativamente pequenos negócios.

O deputado Nikolas Ferreira criticou a proposta, afirmando que a solução para os problemas dos trabalhadores não pode ser apenas legislativa e que a PEC pode gerar consequências indesejadas, como demissões e aumento de preços, dependendo de sua implementação no mercado.

A aprovação da PEC que acaba com a escala 6x1 na Câmara dos Deputados provocou uma das discussões mais intensas do ano no Congresso. A proposta, aprovada em dois turnos, reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e estabelece dois dias de descanso por semana. O texto ainda precisa passar pelo Senado para entrar definitivamente na Constituição.

No plenário, o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, fez um discurso duro contra a condução política da proposta. Embora tenha votado a favor do texto, o parlamentar afirmou que a esquerda tentou transformar o tema em uma armadilha narrativa contra a oposição, colocando deputados contrários à proposta como inimigos dos trabalhadores.

Segundo Nikolas, o problema central não estaria apenas na escala de trabalho, mas na realidade econômica mais ampla enfrentada pelo brasileiro. Para ele, discutir a redução da jornada sem falar de produtividade, carga tributária, custo de vida, segurança pública, saúde e educação seria uma forma incompleta e eleitoral de tratar a vida do trabalhador.

O deputado afirmou que a esquerda, que segundo ele esteve por quase 20 anos no comando do país nas últimas décadas, tenta agora se apresentar como defensora dos trabalhadores após ter contribuído para uma estrutura de Estado cara, ineficiente e incapaz de entregar serviços básicos com qualidade. Na avaliação apresentada por ele, o salário do trabalhador não é corroído apenas pelas horas de trabalho, mas também pelos impostos, pelo preço dos alimentos, pela gasolina, pelo transporte, pela insegurança e pela necessidade de pagar serviços privados quando o Estado falha.

A fala ocorre em meio a um debate sensível. De um lado, defensores da PEC afirmam que o fim da escala 6x1 representa um avanço histórico, principalmente para trabalhadores de setores como comércio, serviços, bares, restaurantes, segurança, limpeza e atendimento, que muitas vezes têm apenas um dia de descanso por semana. Para esse grupo, a medida melhora a qualidade de vida, amplia o tempo para família, estudo, lazer e saúde, além de atualizar a legislação brasileira diante das mudanças tecnológicas e produtivas das últimas décadas.

Do outro lado, críticos da proposta alertam que a redução da jornada por decisão constitucional, sem um amplo acordo econômico e setorial, pode gerar aumento de custos para empresas, pressão sobre preços e dificuldades para pequenos negócios. Esse é o ponto central explorado por Nikolas. Para ele, a mudança pode parecer positiva no discurso, mas pode produzir efeitos negativos se for aplicada sem planejamento, especialmente em setores que dependem de operação contínua e têm margens apertadas.

O parlamentar também criticou o que chamou de “canetada” legislativa. Segundo ele, se fosse simples resolver a realidade do trabalhador apenas por força de lei, governos anteriores já teriam acabado com a escala há muitos anos ou aumentado drasticamente o salário mínimo. A crítica busca atingir o discurso de que a medida, por si só, seria suficiente para melhorar a vida do trabalhador.

No discurso, Nikolas também acusou a esquerda de ter feito uma manobra política ao aceitar um texto diferente do modelo 4x3 defendido inicialmente por parte dos movimentos favoráveis ao fim da escala. A PEC aprovada estabelece a jornada de 40 horas em cinco dias, com dois de descanso, e não a escala de quatro dias de trabalho por três de folga. Para o deputado, a oposição virou o jogo ao votar a favor e impedir que a pauta fosse usada exclusivamente como arma política contra parlamentares de direita.

A crítica mais forte veio quando Nikolas afirmou que, se houver demissões em massa, aumento de preços ou dificuldade para pequenos empreendedores manterem funcionários, os responsáveis serão os defensores da proposta. A declaração reforça a tese de que a PEC pode transferir para o mercado de trabalho uma conta que ainda não teria sido devidamente calculada.

A discussão também expõe uma disputa mais profunda sobre o papel do Estado na economia. Para os defensores da mudança, cabe ao poder público garantir limites à exploração do trabalho e corrigir desequilíbrios históricos nas relações trabalhistas. Para os críticos, o Estado não pode impor novas obrigações sem considerar produtividade, custos, competitividade e capacidade real de adaptação das empresas.

Nikolas tentou reposicionar o debate em torno de uma pergunta incômoda: quem realmente defende o trabalhador, quem promete mais descanso por lei ou quem alerta para os efeitos econômicos que podem atingir o emprego, o salário e o preço dos produtos?

A resposta ainda dependerá dos próximos passos no Senado e, caso a PEC seja aprovada definitivamente, da forma como empresas, setores econômicos e trabalhadores se adaptarão às novas regras. Por enquanto, a votação já deixou claro que a escala 6x1 deixou de ser apenas uma pauta trabalhista e se transformou em uma batalha política sobre narrativa, economia e confiança pública.


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